Sabe, essa semana eu me peguei pensando em profissão. Na que eu escolhi. Escolhi mesmo. Sempre quis ser jornalista porque eu queria ser jornalista e, sinceramente, ainda quero e sei que vou continuar querendo. Não porque imagine que exista alguma profissão capaz de nos definir por inteiro, mas porque, se um dia me tirarem isso, se é que alguém possa me tirar de ser quem sou, o que exatamente me restaria? Talvez aquilo que mais sei fazer: conversar. E, principalmente, ouvir.

Foi justamente dentro dessa capacidade de ouvir, e aqui não me refiro ao sentido auditivo da coisa, que entrei em contato com ela. E não, não foi a primeira vez que conversei com uma garota de programa, uma profissional do sexo. Há pessoas que parecem existir apenas quando alguém precisa falar sobre elas, quase nunca quando elas próprias têm alguma coisa a dizer. Durante a nossa conversa, mais uma vez me deparei com fatos que continuam acontecendo debaixo dos nossos narizes, debaixo dos lençóis citadinos das nossas vidas aparentemente tão bonitas, corretas, cheias de amores, bons costumes e belos prazeres.

A vida é mesmo um moinho. Sempre foi esse gigante triturador de sonhos, expectativas, planos e certezas, e todos os dias eu me nego a deixar que os meus próprios cacos voem ao vento. Não por soberba que me faça acreditar que sei mais do que os outros, mas pela competência, cada vez mais rara, de ouvir antes de concluir. Há uma diferença enorme entre saber falar sobre alguém e saber escutar alguém.

Quantas mulheres e homens seguem suas vidas tentando erguer a cabeça diante dos abusos morais e éticos que se espalham pelos centros enrijecidos de concreto e hipocrisia? Quantas histórias passam por nós sem que sequer percebamos que existem? Quantas pessoas são reduzidas à profissão que exercem, à roupa que vestem, ao corpo que mostram, ao lugar onde trabalham ou àquilo que alguém decidiu que deveriam ser? Há um tipo de julgamento que não precisa de tribunal. Basta uma conversa de esquina, um comentário atravessado e pronto: está criado o veredito.

Vozes que estalam por trás do desconhecimento, apontamentos quase sempre certeiros apenas para quem aponta. Porque há algo particularmente curioso na moral de muita gente: quem aponta para o julgamento costuma usar o mesmo dedo para fazer a escolha. Escolhem a dedo, agridem a punhos e difamam com a língua. E quase sempre fazem isso em nome de uma pureza que ninguém sabe exatamente onde começa, mas que termina convenientemente quando o desejo aparece. Talvez seja essa a parte mais curiosa de conversar com profissionais do sexo. Não porque sejam distantes ou incompreensíveis, como algumas pessoas precisam acreditar para preservar a própria superioridade moral, mas justamente porque são humanos demais. E o humano, quando observado de perto, raramente combina com as caricaturas que se inventam à distância. Há pessoas antes e depois da profissão, histórias que não começam quando entram para trabalhar e certamente não terminam quando deixam o expediente. Existe vida acontecendo enquanto nós, do lado de fora, insistimos em resumir pessoas a uma palavra.

É claro que existem exploração, violência, vulnerabilidade, abuso e situações em que a escolha não é exatamente uma escolha. Tudo isso precisa ser discutido com seriedade. Mas discutir seriamente talvez seja justamente não transformar toda profissional do sexo em vítima automática nem toda escolha em liberdade absoluta. A vida é menos organizada do que os discursos que fazemos sobre ela. Há necessidade, dinheiro, autonomia, medo, oportunidade, falta de oportunidade e uma infinidade de circunstâncias que não cabem na sentença moral pronta de quem olha de fora. E talvez seja aí que o ouvinte precise permanecer. Não para absolver ninguém, muito menos para condenar. Para perguntar, ouvir, confrontar versões, compreender contextos e, sobretudo, resistir à tentação de transformar pessoas em personagens convenientes para aquilo que já pensamos.

Depois daquela conversa, fiquei pensando em quantas vezes a sociedade constrói personagens justamente para não precisar lidar com pessoas. É muito mais confortável lidar com rótulos porque os rótulos não falam de volta, mas as pessoas falam. Ouvir alguém é também uma forma de colocar a própria arrogância em silêncio. É aceitar que uma história pode começar muito antes de nós chegarmos e continuar muito depois de irmos embora. É descobrir que, por trás de uma profissão julgada, existe uma pessoa que não precisa de autorização para existir. Ela me contou a história dela. Eu ouvi. E quanto mais penso nisso, mais percebo que talvez a questão nunca tenha sido sobre a profissão dela.

Talvez seja sobre a necessidade de separar o mundo entre aquilo que desejam em segredo e aquilo que condenamos em público. No fim, a moral costuma ser muito barulhenta quando está diante dos outros e surpreendentemente silenciosa quando ninguém está olhando. Talvez porque, enquanto alguns passam o dia julgando os lençóis alheios, a própria hipocrisia já esteja dormindo neles há muito tempo.

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