Há pouco mais de uma década, falar sobre proteção animal ainda era algo restrito a pequenos grupos de voluntários. Hoje, o tema mobiliza governos, instituições, o Congresso Nacional e milhares de cidadãos em todo o país. Em Caratinga, uma das pessoas que testemunharam e ajudaram a construir essa mudança é a protetora independente Aline Verneque

 

CARATINGA – Enquanto o Senado Federal discute a criação do Estatuto dos Cães e Gatos, proposta que busca consolidar direitos dos animais e fortalecer políticas públicas contra maus-tratos e abandono, a realidade vivida diariamente por protetores mostra que o desafio continua enorme.

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 30 milhões de cães e gatos vivem atualmente em situação de rua no Brasil. Desse total, aproximadamente 20 milhões são cães e 10 milhões são gatos.

Para Aline Verneque, que há cerca de 12 anos atua no resgate e auxílio a animais abandonados, esses números ganham rostos, histórias e cicatrizes.

“Eu não faço ideia de quantos animais já ajudei. Posso dizer que são centenas. Não apenas os que passaram pelas minhas mãos, mas também aqueles que consegui encaminhar para tratamento, para lares temporários ou para adoção. São incontáveis.”

 

Quando ajudar também salva quem ajuda

 

A história de Aline na proteção animal começou em um momento delicado da própria vida.

Ela conta que enfrentava um período de depressão quando encontrou uma cadela filhote acometida por cinomose, doença grave que muitos consideram fatal.

“Eu achei que não existia tratamento. Fui pesquisar e descobri que havia cura. Levei aquela cachorrinha para casa. Ela chegou a perder os movimentos, mas voltou a andar. Na verdade, nós nos ajudamos. Eu precisava ocupar minha mente e ela precisava de alguém que acreditasse nela.”

A cadela continua com ela até hoje.

E foi justamente aquele primeiro resgate que mudou sua vida.

“Depois disso, eu nunca mais parei.”

 

Muito além dos animais que estão em casa

 

Atualmente, Aline cuida de oito cães em sua residência. Mas esse número não representa a dimensão do trabalho que realiza.

 

Existem ainda gatos e cães mantidos em lares temporários, cujo tratamento, alimentação e medicamentos dependem de campanhas solidárias, rifas, bazares e doações da comunidade.

“Hoje eu não posso pegar mais animais para mim. Existe uma responsabilidade muito grande. Não posso me tornar acumuladora. Preciso dar conta daqueles que já estão sob minha responsabilidade.”

Ela explica que o trabalho de um protetor vai muito além do resgate.

“Às vezes a pessoa encontra um animal ferido e me procura. Eu consigo uma clínica parceira, peço ajuda para medicamentos, mobilizo outros protetores. Nem sempre o animal fica comigo, mas ele recebe atendimento.”

 

A força de uma rede solidária

 

Uma das maiores mudanças que Aline percebeu ao longo dos anos foi justamente o crescimento da rede de apoio.

Segundo ela, atualmente existe uma consciência maior da população sobre a necessidade de ajudar.

“Hoje temos grupos de proteção animal, clínicas parceiras, pessoas que doam medicamentos, ração, roupas para bazares. Ainda é difícil, mas existe muito mais apoio do que existia quando comecei.”

 

Esse apoio, porém, está longe de resolver todos os problemas.

A realidade financeira continua sendo um dos maiores desafios enfrentados pelos protetores independentes.

“Veterinário precisa receber. As clínicas ajudam, fazem descontos, mas ninguém trabalha de graça. Muitas vezes a gente deixa contas pendentes porque simplesmente não tem de onde tirar.”

 

Histórias que jamais serão esquecidas

 

Entre centenas de resgates, alguns permanecem gravados para sempre na memória.

Um deles foi o do gato Tobias, conhecido inicialmente como Moreno.

“Ele chegou com o maxilar quebrado e a boca necrosada. Foram meses de tratamento, cirurgia e recuperação. Hoje está totalmente curado e vivendo em uma família que o adotou.”

Outro caso marcante foi o de Gael.

Atacado por um pitbull, o animal sofreu múltiplas fraturas nas patas dianteiras.

“Foram praticamente um ano e meio de tratamento. Ele passou por três cirurgias. Conseguimos salvar uma das patas, mas a outra precisou ser amputada. Hoje está adotado e vive muito bem.”

 

Mas talvez uma das histórias mais dolorosas seja a de Lili.

Encontrada abandonada em uma estrada rural, a pequena cadela, que pesa menos de dois quilos, apresentava a coluna quebrada.

“Ela é muito pequena. Não dava trabalho nenhum. Mesmo assim foi abandonada. Isso mostra que a maldade humana não escolhe tamanho, raça ou porte.”

Hoje, Lili permanece sob seus cuidados.

 

A proteção animal como questão de saúde pública

 

Para Aline, ainda existe um equívoco comum quando se fala sobre proteção animal.

Muitas pessoas enxergam apenas o aspecto emocional da atividade.

Ela defende que o trabalho realizado pelos protetores tem impacto direto na saúde pública.

“Cuidar dos animais também é uma questão de saúde pública. Quando resgatamos, tratamos, vacinamos e encaminhamos para adoção, estamos ajudando toda a comunidade.”

Essa visão vem ganhando força em todo o país.

A discussão do Estatuto dos Cães e Gatos no Senado Federal é reflexo dessa mudança de mentalidade, ao reconhecer a necessidade de políticas permanentes para combater o abandono e os maus-tratos.

 

Uma sociedade que mudou

 

Ao longo dos últimos anos, Aline acredita que houve avanços importantes.

A causa animal passou a ocupar espaço nos debates públicos, surgiram campanhas de conscientização, programas de castração e uma maior preocupação da população com o bem-estar dos animais.

Mas ela acredita que ainda há muito a ser feito.

“Precisamos avançar na conscientização. O abandono continua acontecendo todos os dias.”

Segundo ela, um dos problemas está na compra impulsiva de animais.

“As pessoas compram ou incentivam cruzamentos sem responsabilidade. Quando o animal cresce, envelhece ou adoece, acabam abandonando.”

 

Um apelo à adoção

 

Ao encerrar a entrevista, Aline deixa uma mensagem simples, mas carregada de significado.

“Eu peço às pessoas que adotem. Não comprem animais. Procurem o Canil Municipal, procurem os protetores independentes. Existem muitos animais esperando apenas uma oportunidade.”

 

Ela lembra que grande parte dos cães e gatos disponíveis para adoção já enfrentou situações extremas de abandono, violência ou negligência.

“São animais que precisam apenas de carinho, responsabilidade e uma segunda chance.”

Em uma cidade que completa 178 anos de história, a trajetória de Aline Verneque mostra que a evolução de uma sociedade também pode ser medida pela forma como ela trata aqueles que não têm voz para pedir ajuda.

Atualmente, Aline cuida de oito cães em sua residência. Mas esse número não representa a dimensão do trabalho que realiza
Com um trabalho voltado à proteção animal, Aline Verneque faz parte desse álbum

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