Ela começou a cantar ainda criança e construiu uma trajetória marcada por festivais, conquistas, dificuldades e fé. Acaba de vencer um concurso com quase 200 participantes, o Som do Céu, realizado em Ibirité

 

CARATINGA – Aos nove anos, Cislaine de Lourdes Oliveira já subia ao palco para cantar. Na antiga Rádio Caratinga, participou do programa “Quando o Galo Canta”, apresentado por Walter Nunes, e recebeu como prêmio uma bonequinha da coleção Chuquinha. Aquela menina que descobria a própria voz ainda na infância não imaginava, provavelmente, quantos caminhos a música abriria ao longo das décadas.

Vieram os festivais, as vitórias, as apresentações, a parceria com a irmã Sislene, a gravação do CD Promessa, momentos de dor e dificuldades pessoais e, sobretudo, uma relação cada vez mais profunda entre música e fé.

Agora, Cislaine vive um novo capítulo dessa história. Para chegar ao palco do Som do Céu, evento promovido pela MPC Brasil e realizado em Ibirité, ela passou por uma seleção que reuniu quase 200 participantes. A primeira etapa foi uma audição, no dia 25 de julho, em que os candidatos tiveram um minuto e meio para cantar à capela. Classificada para a decisão, Cislaine venceu a grande final, realizada em 1º de agosto, conquistando a oportunidade de integrar a programação do encontro.

Com uma trajetória de mais de quatro décadas, o Som do Céu reúne diferentes gerações e estilos da música cristã e transforma o palco em espaço de expressão artística e espiritual. Para uma cantora que começou sua caminhada em Caratinga, chegar a esse evento depois de vencer uma disputa tão concorrida representa mais do que uma apresentação. É a confirmação de que cada etapa da carreira – inclusive as mais difíceis – ajudou a prepará-la para o momento atual.

 

 

 

Você começou a cantar ainda criança e chegou a receber uma premiação aos nove anos, em um programa da antiga Rádio Caratinga. Quando percebeu que cantar poderia deixar de ser apenas uma paixão e se transformar em uma missão e em uma carreira?

 

Quando me dispus a unir a paixão e a missão, vi que poderia ser bênção por onde passo, através da voz. E onde eu não posso ir, minha voz pode.

 

Sua trajetória musical também foi construída ao lado da sua irmã, Sislene. O que significa dividir tantos momentos da carreira com alguém da própria família?

 

Antes de cantarmos juntas, eu já cantava. Viajava fazendo solo e quis trazê-la mais para perto, como todos da família que cantam. Naquele ciclo, decidimos trazer algo diferente, juntas. E estarmos juntas foi um sonho meu realizado.

 

Você participou de diversos festivais e acumulou vitórias ao longo da carreira. O que esses concursos ensinaram à cantora Cislaine e à pessoa Cislaine?

 

Ao longo desta trajetória de várias vitórias, eu ainda não conseguia me liberar para algo mais profundo. Eu me sentia despreparada. Desta vez, vi que essa jornada me preparou, mesmo com meus medos. A Cislaine pode, se ela quiser viver isso. E hoje eu quero.

Eu olho para trás e vejo a história construída. Vejo que estou no caminho e que Deus foi e é comigo.

 

Em 2015, você e Sislene venceram o Festival W. Music, em Vitória, um momento que acabou impulsionando a carreira de vocês. O que aquela vitória representou?

Em 2015, pela impossibilidade que eu tinha na época, pude entender que a escada estava posta diante de nós.

Aprendizado. Degrau.

 

Você enfrentou períodos muito difíceis na vida pessoal e, mesmo assim, continuou cantando. O que a música representa para você nos momentos em que a vida fica mais difícil?

 

Cantar é orar, e a música, no modo geral, tem uma mensagem. E o gênero que eu aprecio me traz paz.

 

Agora surgiu um desafio diferente: o Som do Céu, um evento que há mais de 40 anos reúne artistas cristãos e transforma a música em instrumento de fé. O que significa para uma cantora de Caratinga chegar a um palco com essa história?

 

Significa que estou preparada para viver o NOVO QUE DEUS TEM PARA MIM, neste ciclo, neste tempo.

 

O Som do Céu reúne diferentes estilos e expressões dentro da música cristã. Como você enxerga o espaço da música gospel hoje e o que mudou na forma de produzir e apresentar esse tipo de música?

Este estilo musical melhorou muito. Vários ritmos foram agregados, claro, com muita sabedoria, pois os ritmos e a letra não podem ser substituídos por outra letra que não glorifique a Deus.

Somos livres nos ritmos para a glória de Deus.

 

Quando você sobe ao palco, o que vem primeiro: a cantora preocupada com a técnica, a artista preocupada com a apresentação ou a cristã preocupada com a mensagem que aquela música vai transmitir?

 

O cantor, o artista, a técnica, a apresentação e a mensagem não podem seguir separados. É tudo junto. E o negócio acontece.

Antes de qualquer apresentação, a mensagem tem que falar comigo e com o meu Criador, Deus, porque o louvor e a adoração não podem ficar no teto; têm que ter a nota certa para chegar ao céu.

 

Caratinga acompanhou boa parte da sua trajetória. O quanto a cidade, as igrejas, os amigos e as pessoas que acreditaram em você foram importantes para que essa carreira continuasse?

 

Ninguém chega sozinho. Tenho uma cidade da qual me orgulho, igrejas que me acolhem, família que me ama e amigos que me impulsionam a continuar no caminho. Acolhimento.

 

Depois de tantos festivais, conquistas, dificuldades e recomeços, o que a Cislaine de hoje diria para aquela menina que começou cantando ainda criança e sonhava em viver da música?

 

Vai ter dias que vai doer. Vai ter época que você vai olhar e não terá aquela pessoa que te viu nascer e crescer fisicamente, ou não terá alguém, como irmãos, que eram seus fãs e acreditavam em você. Você junta tudo isso, olha para trás e vai ver que já está quase lá. Você terá forças para alcançar, para voar e viver uma linda história. Mas você precisa se permitir viver coisas novas.

 

Se você pudesse resumir sua trajetória até o Som do Céu em uma única canção, qual seria — e por quê?

Minha música hoje é: “Nada quebrado, nada faltando, nada fora do lugar.”

Cislaine e a cantora gospel Sandrinha, que foi jurada do festival (Foto: Arquivo pessoal)
O suporte da família em mais um festival (Foto: Arquivo pessoal)
Momento da audição (Imagem: reprodução)

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