A trajetória de Erivelton Silva inspira jovens a acreditarem no poder do conhecimento
CARATINGA – Em uma época em que a tecnologia redefine profissões, cria novas oportunidades e exige aprendizado contínuo, histórias de superação e dedicação ganham ainda mais relevância. A trajetória do caratinguense Erivelton (Eri) Silva é um exemplo de como o estudo, a persistência e a coragem para enfrentar desafios podem romper barreiras geográficas e transformar sonhos aparentemente distantes em realidade.
Natural de Caratinga, Eri estudou em escolas públicas da cidade, cresceu no bairro Esplanada e, como tantos jovens do interior, iniciou a vida profissional cedo. A caminhada, porém, nunca foi fácil. Antes de conquistar espaço em algumas das maiores empresas de tecnologia do planeta, enfrentou os desafios comuns a milhares de imigrantes: trabalhou na construção civil, realizou serviços de limpeza, fez entregas de pizza e exerceu diversas atividades enquanto buscava construir um futuro melhor. Em nenhum momento, entretanto, abandonou aquilo que considera seu maior patrimônio: o conhecimento.
Ao longo de quase duas décadas nos Estados Unidos, construiu uma carreira sólida na área de tecnologia, passando por gigantes como Google e Microsoft até chegar à Cloudflare, referência mundial em infraestrutura, segurança e conectividade na internet. Paralelamente, concluiu a graduação em Administração, especializou-se em Computação em Nuvem (Cloud Computing) e Inteligência Artificial e passou a atuar em projetos globais envolvendo inovação, transformação digital e cibersegurança.
Embora tenha alcançado reconhecimento internacional e hoje viva em Orlando, na Flórida, Eri faz questão de manter vivos os laços com sua terra natal. Sempre que retorna a Caratinga para visitar familiares, relembra a infância, os anos de estudo, os amigos e os valores que moldaram sua personalidade. Mais do que isso, procura transmitir às filhas, nascidas nos Estados Unidos, o orgulho de suas raízes mineiras e da cidade onde sua história começou.
Em tempos de Inteligência Artificial e rápidas transformações no mercado de trabalho, a experiência de Eri também oferece uma reflexão importante: independentemente do local onde alguém nasce, são as escolhas, o compromisso com o aprendizado e a disposição para evoluir continuamente que abrem caminhos para o futuro. Na entrevista a seguir, ele fala sobre sua trajetória, os desafios enfrentados, as oportunidades na tecnologia, o impacto da Inteligência Artificial e deixa uma mensagem especialmente aos jovens que sonham alto, mas acreditam que a origem possa limitar seus horizontes.
Você nasceu em Caratinga e hoje atua em uma das maiores empresas de tecnologia do mundo. Como foi sua trajetória desde a cidade até chegar ao Vale do Silício e, atualmente, à Cloudflare?
Nasci em Caratinga e foi aqui que aprendi valores que carrego comigo até hoje, como respeito, honestidade, trabalho e perseverança. Estudei em escolas públicas da região, como o Dom Carloto, o Estadual e o Princesa Isabel, e tenho muito orgulho das minhas origens.
Depois de concluir o ensino médio, fui para Belo Horizonte estudar Direito. Algum tempo depois surgiu a oportunidade de fazer um intercâmbio para os Estados Unidos. A ideia era simples: aprender inglês, conhecer uma nova cultura e voltar para o Brasil. Mas a vida acabou me apresentando um caminho diferente, e decidi construir minha história por lá.
O começo, como acontece com muitos imigrantes, foi desafiador. Trabalhei na construção civil, com limpeza, entregando pizzas e em outras atividades. Nunca tive vergonha desses trabalhos. Pelo contrário, todos fizeram parte da minha formação como profissional e, principalmente, como pessoa.
Confesso que houve momentos em que me perguntei se um dia conseguiria trabalhar na área com que realmente sonhava. Mas, mesmo quando o caminho parecia distante, nunca deixei os estudos de lado. Sempre acreditei que o conhecimento abriria portas que eu ainda nem conseguia enxergar.
Concluí minha graduação em Administração nos Estados Unidos, busquei especializações em Cloud Computing e Inteligência Artificial e fui construindo minha carreira um passo de cada vez.
Ao longo desses quase 20 anos, tive a oportunidade de trabalhar em empresas como Google, Microsoft e, atualmente, Cloudflare. Olhando para trás, percebo que nada aconteceu da noite para o dia. Cada desafio, cada trabalho e cada etapa tiveram um propósito e me prepararam para a oportunidade seguinte.
Em sua carreira, você passou por empresas como Google, Microsoft e agora Cloudflare. Quais foram os maiores desafios e aprendizados em cada uma dessas experiências?
No Google, um dos maiores desafios foi trabalhar em um ambiente onde a inovação faz parte da cultura todos os dias. Aprendi a pensar de forma mais estratégica, a resolver problemas complexos e a participar de projetos que realmente ajudavam empresas a acelerar sua transformação digital. Foi também uma fase muito especial da minha carreira, em que tive a oportunidade de receber o Google Stratosphere Award, um reconhecimento global concedido a profissionais que se destacam por resultados, inovação e impacto para a empresa. É uma conquista da qual tenho muito orgulho.
Mas talvez o maior aprendizado tenha sido perceber que, por trás de toda grande tecnologia, existem pessoas extraordinárias. Trabalhar ao lado de profissionais tão talentosos elevou meu nível de exigência comigo mesmo e mudou a forma como passei a enxergar liderança, colaboração e inovação.
Na Microsoft, participei de projetos de modernização tecnológica, segurança e inteligência artificial para empresas de diferentes segmentos. O maior aprendizado foi entender que tecnologia, sozinha, não resolve problemas. É preciso compreender o desafio de cada organização e construir soluções que realmente gerem impacto para o negócio. Também foi uma experiência muito rica pela oportunidade de trabalhar com equipes multidisciplinares e profissionais extremamente talentosos.
Na Cloudflare, passei a atuar ainda mais próximo de temas como cibersegurança, conectividade, performance de aplicações e inteligência artificial. É um mercado que evolui diariamente e exige atualização constante. O desafio é acompanhar essa velocidade e ajudar empresas a utilizarem a tecnologia de forma mais segura, eficiente e preparada para o futuro.
Olhando para toda essa trajetória, percebo que o maior aprendizado não veio apenas das empresas por onde passei, mas das pessoas com quem tive a oportunidade de trabalhar. Cada projeto, cada desafio e cada equipe contribuíram para a forma como enxergo tecnologia, inovação e desenvolvimento profissional.
Muitas pessoas acreditam que uma carreira internacional é um objetivo distante para quem nasce em cidades do interior. Em algum momento você também teve essa sensação? O que foi decisivo para superar essa barreira?
Sim. Durante muito tempo eu também achei que esse tipo de carreira estivesse muito distante da minha realidade. Quando você cresce em uma cidade do interior, é natural imaginar que as grandes oportunidades pertencem a quem nasceu em outro lugar ou teve mais recursos. Eu também pensei assim.
Mas cresci ouvindo minha mãe repetir uma frase que nunca saiu da minha cabeça: “O nome não faz a pessoa. É a pessoa que faz o nome.”
Na época talvez eu não entendesse toda a força dessas palavras. Hoje percebo o quanto elas influenciaram praticamente todas as decisões importantes da minha vida.
Com o tempo, entendi que não era o fato de ter nascido em Caratinga que definiria o meu futuro. O que faria diferença seriam as minhas escolhas, a disposição para estudar, trabalhar e continuar aprendendo, mesmo quando as oportunidades pareciam muito distantes.
E nem sempre as coisas deram certo. Recebi respostas negativas, perdi oportunidades, precisei recomeçar algumas vezes e tive momentos em que me perguntei se realmente estava no caminho certo. Mas aprendi que um “não” nunca define uma carreira inteira. Ele faz parte dela e, muitas vezes, nos prepara para oportunidades ainda maiores.
Minha trajetória nunca foi construída com grandes saltos. Ela foi construída passo a passo: estudando em Belo Horizonte, aprendendo inglês, trabalhando em diferentes áreas nos Estados Unidos, concluindo minha graduação, me especializando e aproveitando cada oportunidade que apareceu.
Quando olho para trás, percebo que nenhuma etapa foi desperdiçada. Cada uma delas me preparou para a seguinte. Hoje, olhando para toda essa caminhada, existe uma frase que resume muito bem o que aprendi: O lugar onde você nasce faz parte da sua história. As suas escolhas escrevem o resto.
A inteligência artificial está transformando praticamente todas as profissões. Na sua avaliação, quais mudanças já são realidade e o que ainda podemos esperar nos próximos anos?
A inteligência artificial já deixou de ser uma tecnologia do futuro. Ela faz parte da nossa rotina, muitas vezes sem que a gente perceba. Está presente quando usamos aplicativos de navegação, plataformas de streaming, assistentes virtuais, ferramentas de produtividade e até quando fazemos uma pesquisa na internet.
Às vezes as pessoas imaginam que inteligência artificial é algo distante ou restrito às grandes empresas de tecnologia, mas ela já está no celular que usamos todos os dias. A diferença é que agora ela está ficando cada vez mais inteligente, acessível e integrada ao nosso dia a dia.
Nas empresas, a IA já ajuda a automatizar processos, analisar grandes volumes de dados, melhorar a segurança e tornar a tomada de decisões mais rápida e eficiente. E isso é apenas o começo.
Nos próximos anos, acredito que veremos uma integração ainda maior dessa tecnologia em praticamente todas as profissões. Assim como aconteceu com a internet e, depois, com os smartphones, a inteligência artificial deixará de ser um diferencial para se tornar uma ferramenta de trabalho para praticamente todo mundo.
Mais do que uma mudança tecnológica, estamos vivendo uma mudança na forma de trabalhar. Atividades repetitivas tendem a ser automatizadas, enquanto habilidades como criatividade, pensamento crítico, comunicação e capacidade de adaptação se tornarão ainda mais importantes. Quem conseguir unir tecnologia com essas características humanas terá um enorme diferencial.
Existe uma preocupação de que a IA substitua postos de trabalho. Você acredita que ela representa mais uma ameaça ou uma oportunidade para os profissionais?
Toda grande revolução tecnológica gera preocupação. Foi assim com a Revolução Industrial, com o computador, com a internet e agora acontece o mesmo com a inteligência artificial. Na minha visão, ela será um desafio para quem decidir ignorá-la, mas uma grande oportunidade para quem escolher aprender a utilizá-la.
Eu costumo dizer que a inteligência artificial não veio substituir as pessoas. Ela veio eliminar tarefas repetitivas para que as pessoas possam dedicar mais tempo àquilo que nenhuma máquina consegue fazer: criar, liderar, inovar, construir relacionamentos, entender contextos e tomar decisões. Continuaremos precisando de pessoas para resolver problemas complexos, trabalhar em equipe, desenvolver estratégias e exercer empatia. Essas características continuam sendo exclusivamente humanas e, na minha opinião, se tornarão ainda mais valiosas nos próximos anos.
O que realmente vai mudar é o perfil dos profissionais. Quem aprender a trabalhar junto com a inteligência artificial terá uma grande vantagem. Da mesma forma que o computador não eliminou os empregos, mas transformou a forma como trabalhamos, acredito que a IA fará exatamente o mesmo. Por isso, vejo a inteligência artificial muito mais como uma ferramenta de potencialização do que de substituição. A melhor postura não é ter medo da tecnologia, mas desenvolver curiosidade para entendê-la e descobrir como ela pode nos ajudar a fazer um trabalho melhor.
Que habilidades técnicas e comportamentais você considera indispensáveis para quem deseja construir uma carreira na área de tecnologia, seja no Brasil ou no exterior?
Acho que a primeira coisa é entender que ninguém vai saber tudo. A tecnologia muda rápido demais. Então, mais importante do que dominar uma ferramenta específica, é ter disposição para aprender continuamente e humildade para reconhecer quando precisamos evoluir. O inglês fez toda a diferença na minha trajetória. Hoje tenho a oportunidade de trabalhar em português, inglês e espanhol, e isso abriu portas para participar e liderar projetos com equipes e clientes nos Estados Unidos, Brasil, América Latina e Europa.
No meu caso, aprender inglês era praticamente uma necessidade. O espanhol acabou vindo naturalmente, depois de tantos anos trabalhando com clientes e equipes da América Latina. No começo eu entendia muito mais do que conseguia falar, mas conversar todos os dias acabou sendo a melhor escola que eu poderia ter.
Na parte comportamental, destacaria quatro características: curiosidade, disciplina, resiliência e comunicação.
Curiosidade para continuar fazendo perguntas e buscando conhecimento. Disciplina para evoluir mesmo quando ninguém está olhando. Resiliência para entender que nem sempre as coisas acontecem no tempo que gostaríamos. E comunicação porque, por mais técnica que seja uma solução, ela só gera valor quando conseguimos explicar ideias, ouvir diferentes opiniões e trabalhar bem com outras pessoas.
Ao longo da minha carreira, percebi que as pessoas que mais crescem não são necessariamente as que sabem mais no começo. São aquelas que continuam evoluindo, aceitam feedback, se adaptam às mudanças e nunca perdem a vontade de aprender.
A tecnologia muda todos os dias. A curiosidade é o que permite que a gente continue relevante.
Para um jovem de Caratinga que sonha em trabalhar em empresas como Google, Microsoft ou Cloudflare, por onde ele deve começar? Quais são os primeiros passos?
Se eu pudesse dar um conselho para um jovem de Caratinga, seria: não espere a oportunidade perfeita para começar. Comece com o que você tem hoje. Quando olho para trás, percebo que minha carreira foi construída um passo de cada vez, e não com um grande salto.
Eu cresci no bairro Esplanada. Muitas vezes não tinha dinheiro para pagar a circular até o centro da cidade e ia andando para a escola, fizesse sol ou chuva. O trajeto levava 30 ou 40 minutos, mas aquilo nunca definiu o meu futuro. Também comecei a trabalhar cedo como office boy e vi de perto o esforço da minha mãe para pagar as contas e cuidar da nossa família. Essas experiências não me limitaram. Pelo contrário, me ensinaram o valor do trabalho e aumentaram ainda mais a minha vontade de construir uma vida diferente.
O primeiro passo é investir em conhecimento. Hoje existem cursos excelentes, muitos deles gratuitos, sobre tecnologia, computação em nuvem, inteligência artificial e diversas outras áreas. Nunca foi tão fácil aprender. O segundo passo é estudar inglês. Para quem sonha em construir uma carreira internacional, o idioma deixa de ser um diferencial e passa a ser uma ferramenta de trabalho.
Mas, acima de tudo, não tenham medo de sonhar. Não deixem que o lugar onde vocês nasceram ou a condição financeira da família façam vocês acreditarem que determinados sonhos não são possíveis.
Eu nunca imaginei que um dia trabalharia em empresas como Google, Microsoft ou Cloudflare. O que eu fiz foi me preparar para a próxima oportunidade, sem saber exatamente qual seria. Quando ela apareceu, eu estava pronto.
Durante esses quase 20 anos vivendo nos Estados Unidos, quais diferenças culturais e profissionais mais chamaram sua atenção em relação ao mercado brasileiro?
Ao longo desses quase 20 anos, aprendi que existem profissionais extremamente talentosos tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. O que mais me chamou a atenção não foi uma diferença na capacidade das pessoas, mas na forma como cada cultura enxerga iniciativa, inovação e colaboração.
Quando cheguei aos Estados Unidos, precisei aprender muito mais do que inglês. Tive que entender uma nova forma de me comunicar, de me posicionar profissionalmente e até de participar de reuniões e entrevistas. No começo, muitas vezes eu tinha receio de falar, de errar alguma palavra ou de não ser compreendido. Com o tempo, percebi que as pessoas valorizavam muito quem demonstrava iniciativa, fazia perguntas e compartilhava ideias, mesmo sem ter todas as respostas.
Hoje até brinco que alguns dias começam com reuniões em português, passam pelo inglês e terminam em espanhol. Essa convivência diária com diferentes culturas acabou se tornando uma das experiências mais enriquecedoras da minha carreira.
Ao mesmo tempo, trabalhando com clientes e equipes no Brasil, sempre admirei muito a criatividade e a capacidade de adaptação do brasileiro. Muitas vezes encontramos soluções para problemas complexos com recursos limitados e em cenários desafiadores. Ao longo da minha carreira, percebi que essas características também me ajudaram a me destacar internacionalmente. A facilidade para construir relacionamentos, a flexibilidade para lidar com mudanças e a capacidade de encontrar soluções são qualidades muito valorizadas no mercado global.
Aprendi que não precisava deixar de ser brasileiro para ter sucesso. Pelo contrário. Muitas das características que desenvolvi aqui se tornaram um diferencial na minha carreira.
Hoje me sinto em casa tanto em uma reunião em português quanto em inglês ou espanhol. Isso abriu portas para participar e liderar projetos nos Estados Unidos, Brasil, América Latina e Europa. Conviver com diferentes culturas me ensinou que cada país tem suas particularidades, mas respeito, humildade, curiosidade e vontade de aprender são valores universais.
No fim das contas, trabalhar em diferentes mercados me fez perceber que o sucesso não depende do país onde você nasceu, mas da sua capacidade de aprender, se adaptar e aproveitar o melhor que cada experiência pode ensinar.
Mesmo morando em Orlando, você mantém vínculos com Caratinga. O que significa voltar à cidade onde nasceu depois de construir uma carreira internacional?
Por mais tempo que eu passe morando em Orlando, Caratinga sempre será a cidade onde minha história começou. É aqui que estão muitas das minhas lembranças de infância, os amigos que fizeram parte dessa caminhada, as escolas onde estudei e as experiências que ajudaram a formar quem eu sou hoje.
Sempre que volto, tenho a sensação de que o tempo desacelera um pouco. É uma oportunidade de rever lugares que marcaram a minha infância, matar a saudade e lembrar de onde tudo começou. E, sinceramente, isso faz muito bem.
Cada vez que caminho pelas ruas da cidade, lembro do garoto que morava no bairro Esplanada, que muitas vezes ia andando para a escola debaixo de sol ou chuva, que começou a trabalhar cedo como office boy e que sonhava em construir uma vida melhor. Olhar para trás me faz valorizar ainda mais o caminho percorrido.
Minha esposa é americana e nossas filhas nasceram nos Estados Unidos, mas faço questão de que elas conheçam Caratinga e entendam onde essa história começou. Quero que elas conheçam a cidade, a cultura mineira, os lugares que marcaram a minha infância e entendam os valores com os quais fui criado. Acredito que crescer entre duas culturas é um privilégio e quero que elas tenham orgulho das duas.
Tenho muito orgulho da vida que construí nos Estados Unidos, mas também tenho muito orgulho de dizer que sou caratinguense. A gente pode mudar de endereço, mas nunca muda de origem.
Você acredita que a inteligência artificial criará mais oportunidades do que eliminará empregos? Como o Brasil pode se preparar para essa transformação?
Eu acredito que, no longo prazo, a inteligência artificial criará muito mais oportunidades do que eliminará empregos. Ao longo da história, toda grande revolução tecnológica mudou a forma como trabalhamos. Algumas profissões deixaram de existir, outras surgiram e muitas se transformaram completamente. Com a inteligência artificial, acredito que veremos exatamente esse movimento.
O grande desafio não será a tecnologia em si, mas a velocidade com que precisaremos nos adaptar a ela. Por isso, acredito que o Brasil deve investir cada vez mais em educação, qualificação profissional e inclusão digital. Precisamos preparar crianças, jovens e também os profissionais que já estão no mercado para essa nova realidade.
Aprender sobre inteligência artificial não deve ser algo restrito a quem trabalha com tecnologia. Médicos, advogados, professores, engenheiros, empreendedores, comerciantes… praticamente todas as profissões serão impactadas de alguma forma. Quanto antes entendermos isso, mais preparados estaremos.
Também acredito que o Brasil tem uma grande vantagem. Somos um povo criativo, resiliente e acostumado a encontrar soluções para desafios complexos. Se conseguirmos unir essas características com investimento em educação, inovação e acesso à tecnologia, poderemos formar uma geração extremamente competitiva no cenário mundial.
No fim das contas, acredito que a inteligência artificial não vai mudar apenas a forma como trabalhamos. Ela vai mudar também a forma como aprendemos. E os países que criarem uma cultura de aprendizado contínuo serão os que mais aproveitarão essa transformação.
Tecnologias evoluem. Empresas evoluem. O maior investimento que um país pode fazer continua sendo nas pessoas. Se investirmos nelas, estaremos preparados para qualquer transformação que o futuro traga.
Se pudesse deixar uma mensagem para os jovens da região que sonham alto, mas acreditam que a origem pode limitar suas oportunidades, qual conselho você daria?
Se eu pudesse deixar uma mensagem para os jovens de Caratinga e de toda a nossa região, seria esta: nunca deixem que o lugar onde vocês nasceram determine o tamanho dos seus sonhos.
Eu cresci no bairro Esplanada, estudei em escolas públicas, muitas vezes ia andando para a escola porque não tinha dinheiro para pagar a circular e comecei a trabalhar muito cedo como office boy. Vi minha mãe enfrentar muitas dificuldades para sustentar nossa família e, em vários momentos, seria fácil acreditar que aquele seria o limite da minha vida.
Não tenham medo de sonhar grande. Mas lembrem-se de que sonhos, sozinhos, não mudam uma vida. Eles precisam caminhar ao lado da disciplina, da coragem, do estudo, da honestidade e da perseverança.
Nem tudo deu certo na minha caminhada. Recebi “nãos”, perdi oportunidades e precisei recomeçar algumas vezes. Mas aprendi que nenhum fracasso define quem somos. O que realmente nos define é a decisão de continuar caminhando.
Se a minha história servir para alguma coisa, espero que sirva para mostrar que é possível. Não porque eu seja diferente de qualquer outra pessoa, mas porque decidi continuar avançando, mesmo quando o caminho parecia difícil.
Se um menino que saiu do bairro Esplanada, em Caratinga, conseguiu construir uma carreira internacional trabalhando em empresas como Google, Microsoft e Cloudflare, existem muitos outros jovens da nossa região que também podem chegar onde sonharem.
Nunca deixem que alguém diga que vocês não podem. Acreditem em vocês. Estudem. Trabalhem com honestidade. Cuidem das pessoas que caminham ao lado de vocês. Nunca percam a curiosidade de aprender e tenham coragem para recomeçar sempre que for necessário.


