Campeão mineiro de poesia falada retoma a tradição da poesia marginal e leva livros, zines e cordéis diretamente ao encontro dos leitores

 

DA REDAÇÃO – “Escrevo. E pronto. Escrevo porque preciso, preciso porque estou tonto. Ninguém tem nada com isso”. Os versos de Paulo Leminski condensam um dos princípios da poesia marginal: escrever por necessidade, antes de qualquer reconhecimento. É dessa mesma urgência que nasce “Miseráveis Homens”, novo livro de Gabriel Poeta, artista de Ipatinga que, depois de conquistar o título de campeão mineiro de poesia falada no Slam MG 2025, escolheu um caminho pouco comum em tempos de algoritmos e marketplaces: voltou às ruas para vender seus próprios livros.

Publicado pela Editora Caxangá, “Miseráveis Homens” reúne poemas que transitam entre a dor, o afeto, a desigualdade e as pequenas epifanias da vida cotidiana. A escrita preserva a oralidade que fez de Gabriel um dos nomes mais conhecidos do slam mineiro, mas também reafirma um compromisso antigo: fazer da literatura um encontro.

Por isso, o lançamento do livro não se limita às prateleiras das livrarias nem às vitrines digitais. Gabriel voltou a ocupar calçadas, praças e esquinas de Ipatinga com livros, zines e cordéis nas mãos, repetindo o gesto dos poetas que fizeram da rua o primeiro e, muitas vezes, o principal espaço de circulação da poesia.

“Foi no contato corpo a corpo, ocupando as ruas das cidades com poesia, que o público teve acesso ao meu trabalho; e por vezes, se identificou com o que tenho comunicado ao longo dos anos. Voltar para a rua é voltar para a essência. É onde a poesia encontra quem precisa dela”, afirma.

Hoje ele está em Ipatinga. Amanhã pode surgir em Belo Horizonte, Caratinga, Bom Jesus do Galho ou até em Nova Iorque. Afinal, quem vende poesia na rua não escolhe apenas um ponto comercial: escolhe o mundo como território. Cada calçada pode se transformar em livraria, cada praça em palco e cada esquina em um novo capítulo dessa caminhada literária.

As datas e os locais das ocupações poéticas serão divulgados pelas redes sociais do escritor. Quem desejar adquirir um exemplar também poderá entrar em contato diretamente com o autor, que estuda a melhor plataforma para disponibilizar a obra nos formatos físico e digital.

 

Da poesia falada às páginas

 

Gabriel Poeta tornou-se uma das vozes mais expressivas da nova geração da poesia falada em Minas Gerais. Em 2025, venceu o Slam MG e garantiu vaga na etapa nacional, o Slam BR.

O reconhecimento coroou uma trajetória construída em saraus, batalhas de poesia e apresentações culturais, espaços onde seus textos dialogam com questões sociais, afetivas e existenciais, sempre buscando aproximar a literatura das pessoas.

Mas o título não alterou sua maneira de entender a arte. Em vez de se afastar do público, Gabriel voltou exatamente para onde tudo começou: a rua.

 

Muito além dos anos 1970

 

Apesar do nome, a poesia marginal não tem qualquer relação com a criminalidade. O movimento surgiu no Brasil durante a década de 1970, em plena ditadura militar, quando escritores passaram a produzir e distribuir seus próprios livros utilizando mimeógrafos, folhetos e pequenas edições artesanais, contornando os limites impostos pelo mercado editorial e pela censura.

Mais do que um estilo literário, era uma forma de circulação da palavra. Os livros passavam de mão em mão, eram vendidos em universidades, bares, praças e eventos culturais. A literatura saía dos gabinetes para caminhar entre as pessoas.

Nomes como Leminski, Chacal, Cacaso, Ana Cristina Cesar e Francisco Alvim ajudaram a consolidar uma escrita direta, cotidiana e livre das convenções acadêmicas. A poesia deixava de ser um objeto distante para voltar a ser conversa.

Cinquenta anos depois, esse espírito continua vivo.

Os saraus, os slams e as ocupações poéticas renovaram a tradição da poesia marginal ao levar escritores para escolas, bairros periféricos, praças e centros urbanos. A lógica permanece a mesma: diminuir a distância entre quem escreve e quem lê.

É justamente nesse ponto que o trabalho de Gabriel Poeta encontra sua força. Ao vender pessoalmente seus livros, zines e cordéis nas ruas, ele recupera uma prática histórica da literatura independente brasileira e demonstra que, mesmo em tempos digitais, ainda existe espaço para o encontro inesperado entre um poeta e um leitor.

No fim das contas, talvez essa seja a maior herança da poesia marginal: lembrar que um livro pode nascer numa editora, mas continua encontrando seu verdadeiro lugar quando chega às mãos de alguém.

 

BOX

 

Serviço

Livro: “Miseráveis Homens”

Autor: Gabriel Poeta

Editora: Caxangá

Onde encontrar: diretamente com o autor durante as ocupações poéticas realizadas nas ruas de Ipatinga e em outras cidades por onde passar.

Contato: @gabrielpoetta

 

Publicado pela Editora Caxangá, “Miseráveis Homens” reúne poemas que transitam entre a dor, o afeto, a desigualdade e as pequenas epifanias da vida cotidiana

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