Em 2026, até o momento, 14 recém-nascidos foram encaminhados legalmente pelas mães biológicas
Antes mesmo do primeiro choro, o destino de Murilo* já despertava julgamentos opostos: o que para muitos parecia abandono e crueldade, para um casal representava um lindo milagre. Para o menino, tinha apenas um nome: lar. No centro dessa história está Sirlene Oliveira, cuidadora de idosos, hoje com 47 anos, que chegou a ser apontada como vilã após entregar o filho para adoção em Belo Horizonte. Passados 17 anos, ela rejeita o rótulo de “megera” — muitas vezes imposto a quem põe o filho para adoção — e vê sua decisão como o elo que uniu o vazio de quem queria ser pai e mãe à necessidade de uma criança que precisava de amor.
Neste ano, em Minas Gerais, 14 mulheres fizeram o mesmo. Em 2025, foram realizadas 88 entregas legais à adoção, de acordo com o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), e, em 2024, foram 77, o que representa crescimento de 22% em um ano. Elas não cometeram um crime: a ação – quando feita por meio da Justiça – é legal. No entanto, muitas vezes, essas mulheres são tratadas pela sociedade como se tivessem agido contra a lei. Esse estigma é algo que elas e profissionais do direito, da saúde e de outras áreas ainda lutam para combater, uma vez que essa mudança na visão da sociedade pode garantir que, em vez de serem abandonadas, as crianças sejam formalmente enviadas à adoção.
“Quando engravidei do Murilo*, eu tinha 30 anos e dois filhos, de 4 e 2 anos. Não conseguiria criar mais um. Não tinha coragem de ‘tirar’ nem deixar na porta de alguém. Entreguei para adoção. Na época, eu já recebia ameaças de despejo. Como eu iria pra rua com três crianças?”, questiona Sirlene. “Não sou má. Em momento nenhum me arrependo. Queria que ele tivesse uma vida feliz, que fosse amado”, conta.
Ato de amor
Implementado em 2019 pelo TJMG, o programa Entrega Legal busca atender as determinações da Lei 13.509/2017, acerca do direito de mulheres entregarem recém-nascidos para adoção. O juiz Marcelo Augusto Lucas Pereira destaca que, muitas vezes, esse é um ato exclusivamente de amor e responsabilidade. Ele afirma que mais de 90% das mulheres não voltam atrás na escolha – há um prazo de dez dias de arrependimento após a audiência que confirma o desejo das genitoras. Tudo é feito no mais absoluto sigilo. A vontade da gestante de entregar o bebê pode ser manifestada a qualquer momento na Vara da Infância e da Juventude.
“Esse é um direito de cunho humanitário e visa proteger a mulher e a autonomia. Ela pode não ter condições de criar a criança ou mesmo não querer. Não cabe a nós julgar. Fazemos uma escuta protegida, não invadindo ou questionando as motivações”, ressalta o magistrado.
Decisão que transforma
A necessidade de acolher e dar informações a essas mulheres é também ressaltada pela coordenadora estratégica de promoção e defesa dos direitos das crianças e adolescentes, a defensora pública Daniele Bellettato. E esse é um dos trabalhos da Defensoria Pública de Minas Gerais. “Prestamos informações, esclarecemos o que é direito, as possibilidades e consequências. Porém, nunca damos conselhos se as mulheres deveriam ou não entregar a criança, pois são elas que vão carregar a decisão pelo resto da vida”, ressalta.
Daniele também explica que é necessário assegurar que a escolha esteja sendo realmente livre. “Muitas vezes, a sociedade diz que entregar para adoção é abandono, vêm julgamentos morais, religiosos. Por isso, o acolhimento é tão importante, para fazer esse momento menos doloroso. A escolha é da mulher”, afirma ela.
Construção diária
Embora a sociedade, atualmente, compreenda melhor a entrega de bebês para adoção, ainda há muito o que se fazer em termos de conscientização, segundo o psicólogo Thales Coutinho. Ele ressalta que as pessoas ainda são muito mais permissivas com a paternidade do que com a maternidade. “Se uma mulher é condenada socialmente por entregar o filho para adoção, mesmo agindo dentro da lei, ela pode acabar tomando decisões desesperadas, como abandonar a criança em algum local, deixar na rua. Se as pessoas tivessem uma visão mais compassiva, elas estariam protegendo não somente as mulheres, mas também essas crianças”, afirma ele.
Fila de espera
Após o bebê ser entregue para adoção na Justiça, ele é encaminhado para famílias que, muitas vezes, esperam há anos na fila. Isso, inclusive, costuma ser um alento para as gestantes: a certeza de que as crianças irão para alguém capacitado para criá-las. O juiz Marcelo Pereira destaca que os adotantes passam por um longo processo que verifica se eles estão realmente aptos para receber um filho, psicologicamente e financeiramente. Atualmente, em Minas Gerais, há 4.646 pretendentes esperando a sua vez de dar um lar a alguém, de acordo com o perfil escolhido, que inclui gênero e idade.
*Nome fictício
Afeto dado na infância pode influenciar decisões em adultos
No pós-parto imediato no Hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte, os primeiros minutos de vida dos bebês entregues à adoção seguem roteiros imprevisíveis. Há mães biológicas que escolhem amamentar e se despedir; outras preferem que o recém-nascido seja encaminhado diretamente ao berçário, sem sentir o toque da sua pele ou ver o rosto do filho antes da partida. Para a assistência social da maternidade, não há espaço para julgamentos: cada escolha representa uma história singular, que exige respeito. “Algumas mulheres deixam cartas para os bebês. Outras os registram, mesmo sabendo que não somente o sobrenome, mas também o nome da criança poderá ser trocado. Cada entrega é uma história diferente”, relata a assistente social Elizabeth Caetano. Para a profissional, cada um deles tem uma história, e tanto mães quanto filhos precisam ser respeitados.
São essas histórias entrelaçadas que, de acordo com a publicitária Carolina Gonçalves, de 25 anos, ajudam os filhos adotivos a ter uma vida de segurança e amor. Ela, que foi adotada aos 2 anos, conta que, embora não saiba os motivos que levaram os pais biológicos a entregá-la para adoção, eles deram a ela um presente indireto: o de crescer em um excelente lar.
“É claro que não podemos romantizar. Existem pais adotivos que podem não ser bons, assim como biológicos. Mas, falando da minha experiência e da história de outros filhos adotivos que conheço, elas foram muito boas. Tivemos uma vida que provavelmente não teríamos se não tivéssemos sido adotados”, afirma ela.
O psicólogo Thales Coutinho explica que esse ambiente familiar bem-estruturado é essencial para o desenvolvimento de uma criança. O contrário também acontece. Se ela cresce em um local onde não é desejada ou sem ter as necessidades básicas supridas, pode ter uma série de prejuízos, inclusive na vida adulta.
“Quando uma criança passa por tantas privações, ela pode ficar mais imediatista e preferir recompensas de curto prazo. Isso é ruim para o desenvolvimento. A sensação de segurança e de afeto familiar, por outro lado, cria para a criança a ideia de que existe um futuro, e isso melhora várias decisões ao longo da vida”, diz o especialista.
Coutinho também afirma que, quando uma criança não recebe carinho, isso pode prejudicar seus relacionamentos. “Por não ter recebido esse afeto, a pessoa parte do pressuposto de que os outros são hostis ou que podem machucá-la, então não estabelece vínculo real com ninguém. Isso pode levar à solidão ou a algum tipo de padrão de relacionamento interpessoal que precisa de tratamento”, afirma.
Vida feliz
Foi durante uma aula na escola que Bryan Chaves, de 7 anos, contou para a professora e para os colegas, de maneira espontânea, que foi adotado quando tinha 1 ano. A mãe dele, a engenharia de alimentos Luciene Chaves, de 44 anos, que adotou o menino junto com o marido, Rafael Garcia, conta que é justamente dessa maneira que ela espera que o filho encare a própria história: com orgulho, e que se sinta sempre bem e confortável. Ela já vê na criança todos os benefícios de crescer em um lar repleto de amor e cuidados. Bryan, relata ela, é feliz, inteligente, carinhoso e amigo. Além disso, conforme Luciene, transformou a vida dos pais.
“Nossa vida ficou mais alegre, mais colorida, somos mais felizes”, diz a engenheira, lembrando que adoção não é um ato de caridade, mas de amor. “Queríamos ser pais, e a adoção completou nossa família”, afirma.