Psicólogo Marco Antonio Gomes afirma que a ludopatia vai muito além das perdas financeiras e pode estar associada à ansiedade, depressão e até ao risco de suicídio
CARATINGA – As apostas esportivas on-line deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento para se tornar motivo de preocupação entre especialistas em saúde mental, empresas e autoridades públicas. Com a popularização das chamadas bets, o Brasil assiste ao crescimento de um fenômeno conhecido como ludopatia — o transtorno relacionado ao jogo compulsivo —, que já provoca impactos na vida financeira, familiar e profissional de milhares de pessoas.
Um dos reflexos desse cenário também começa a aparecer no ambiente de trabalho. Dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) apontam um aumento significativo dos afastamentos relacionados a transtornos mentais, entre eles casos associados ao vício em apostas on-line. Empresas também relatam queda de produtividade, aumento do endividamento de funcionários e dificuldades decorrentes da compulsão pelo jogo. Especialistas alertam que o problema tem se agravado com a facilidade de acesso às plataformas digitais, disponíveis 24 horas por dia, e com a intensa publicidade envolvendo atletas, influenciadores e grandes eventos esportivos.
Outro fator que preocupa é o alcance das apostas entre os jovens. A possibilidade de apostar pelo celular, utilizando pequenos valores e recebendo estímulos constantes por meio de bônus, notificações e promoções, aumenta o risco de desenvolvimento da dependência. Segundo estudos internacionais, o funcionamento dessas plataformas explora mecanismos psicológicos semelhantes aos observados em outras formas de dependência comportamental, tornando o abandono do hábito cada vez mais difícil.
Para compreender esse fenômeno, o DIÁRIO conversou com Dr. Marco Antonio Gomes, docente e pesquisador do UNEC, psicólogo clínico e doutor em Avaliação Psicológica. Na entrevista, ele explica por que as apostas exercem tanto fascínio, quais são os principais sinais de alerta, os impactos emocionais da compulsão e o que pode ser feito para prevenir e tratar a ludopatia.
As apostas esportivas se tornaram extremamente populares nos últimos anos e estão presentes em transmissões esportivas, redes sociais e campanhas publicitárias. Do ponto de vista psicológico, o que torna esse tipo de atividade tão atraente para tantas pessoas?
As apostas esportivas reúnem diversos elementos que despertam o interesse humano: expectativa, desafio, recompensa imediata e a sensação de que é possível controlar o acaso por meio do conhecimento sobre esporte. Psicologicamente, elas ativam mecanismos ligados ao prazer e à antecipação da recompensa, fazendo com que o cérebro permaneça constantemente esperando pelo próximo ganho.
Além disso, vivemos uma sociedade marcada pela busca por resultados rápidos e pela gratificação imediata. As plataformas de apostas dialogam diretamente com essa lógica, oferecendo acesso instantâneo, estímulos constantes e a promessa de transformar pequenos valores em grandes ganhos. Para muitas pessoas, o jogo deixa de ser apenas entretenimento e passa a representar uma forma de aliviar tensões, escapar das preocupações ou experimentar uma sensação momentânea de realização.
O que leva uma pessoa a desenvolver dependência em apostas? Trata-se apenas de uma questão financeira e da busca por dinheiro fácil ou existem fatores emocionais mais profundos envolvidos?
A questão financeira costuma ser apenas a porta de entrada. Quando a dependência se instala, o dinheiro frequentemente deixa de ser o objetivo principal.
Na prática clínica, observamos que muitos apostadores utilizam o jogo como uma tentativa de lidar com sentimento de vazio, ansiedade, frustração, solidão ou sofrimento emocional. A psicanálise compreende que determinados comportamentos compulsivos representam tentativas inconscientes de preencher uma falta que nunca é completamente satisfeita. O prazer obtido na aposta é intenso, mas passageiro, levando o indivíduo a repetir continuamente o comportamento na expectativa de reencontrar essa sensação.
Por isso, a ludopatia não deve ser compreendida apenas como um problema financeiro, mas como uma manifestação de um sofrimento psíquico que merece acolhimento e tratamento.
Existe um perfil mais vulnerável ao vício em jogos e apostas ou qualquer pessoa pode desenvolver esse tipo de dependência? Jovens e adolescentes correm riscos maiores?
Não existe um único perfil. Qualquer pessoa pode desenvolver dependência quando determinados fatores pessoais e ambientais se combinam.
Entretanto, indivíduos com impulsividade elevada, dificuldades de autorregulação emocional, ansiedade, depressão, histórico de outras dependências ou situações de grande estresse apresentam maior vulnerabilidade.
Os jovens merecem atenção especial. O cérebro, especialmente as áreas responsáveis pelo planejamento, autocontrole e avaliação das consequências, ainda está em desenvolvimento. Além disso, adolescentes costumam ser mais sensíveis às recompensas imediatas e às influências sociais, tornando-se mais suscetíveis aos mecanismos utilizados pelas plataformas digitais.
A facilidade de apostar pelo celular, a qualquer hora do dia, e o uso de recursos tecnológicos pelas plataformas contribuem para aumentar o risco de compulsão? Como a internet potencializa esse problema?
Sem dúvida. Hoje o jogo está disponível vinte e quatro horas por dia no bolso das pessoas. Isso elimina barreiras que antes limitavam o comportamento.
Além disso, as plataformas utilizam estratégias sofisticadas para manter o usuário conectado, como notificações, bônus, recompensas, estatísticas em tempo real e reforços constantes. Esses recursos aumentam a frequência das apostas e dificultam o controle do comportamento.
A internet também reduz a percepção dos riscos. Apostar pelo celular parece uma atividade cotidiana, semelhante ao uso de qualquer outro aplicativo, o que contribui para a banalização do comportamento.
Muitas pessoas começam apostando valores pequenos e acreditam estar apenas se divertindo. Em que momento o comportamento deixa de ser lazer e passa a representar um sinal de dependência?
O principal critério não é o valor apostado, mas o impacto que o comportamento passa a exercer sobre a vida da pessoa.
O jogo deixa de ser lazer quando começa a ocupar excessivamente os pensamentos, interfere nas relações familiares, prejudica o trabalho ou os estudos, provoca sofrimento emocional ou continua sendo praticado apesar das perdas financeiras e dos prejuízos já evidentes.
Outro sinal importante é quando a pessoa passa a apostar não pelo prazer, mas pela necessidade de aliviar ansiedade, tristeza ou frustração.
Muitos apostadores afirmam que conseguem parar quando quiserem. Essa percepção faz parte do próprio mecanismo da dependência?
Sim. Esse é um dos mecanismos mais comuns nas dependências em geral. A sensação de controle faz com que a pessoa adie o reconhecimento do problema. Frequentemente ela acredita que fará “apenas mais uma aposta” ou que conseguirá recuperar rapidamente o dinheiro perdido. Esse pensamento mantém o ciclo da compulsão e dificulta a procura por ajuda.
Reconhecer a perda de controle costuma ser um dos passos mais difíceis, mas também um dos mais importantes no processo de recuperação.
Quais são os primeiros sinais de alerta que familiares e amigos devem observar? Mudanças de comportamento, isolamento, mentiras e dificuldades financeiras costumam aparecer nessa fase inicial?
Sim. Esses sinais costumam aparecer progressivamente.
Entre os principais estão:
-Preocupação constante com apostas;
-Aumento do tempo gasto em plataformas de jogos;
-Irritabilidade quando não consegue apostar;
-Mentiras para esconder perdas financeiras;
-Pedidos frequentes de empréstimos;
-Isolamento social;
-Queda no rendimento escolar ou profissional;
-Alterações no sono;
-Ansiedade intensa;
-Tentativa contínua de recuperar perdas por meio de novas apostas.
Quanto mais cedo esses sinais forem identificados, maiores são as possibilidades de intervenção.
Além das perdas financeiras, quais são as consequências emocionais e psicológicas mais frequentes entre os apostadores compulsivos? Ansiedade, depressão, culpa e pensamentos suicidas podem estar associados a esse quadro?
Infelizmente, sim. As perdas financeiras costumam ser apenas uma parte do problema.
É comum encontrarmos ansiedade, depressão, sentimentos intensos de culpa, vergonha, desesperança, conflitos familiares e isolamento social. Muitos pacientes desenvolvem baixa autoestima por perceberem que perderam o controle sobre a própria vida.
Nos casos mais graves, especialmente quando existem dívidas importantes, rompimentos familiares e sensação de fracasso, podem surgir pensamentos suicidas. Por isso, a ludopatia deve ser considerada um problema sério de saúde mental e merece atenção especializada.
O senhor acredita que a forte exposição às propagandas de apostas pode contribuir para a normalização do jogo e influenciar pessoas mais vulneráveis?
Acredito que sim. A publicidade não cria sozinha uma dependência, mas contribui para naturalizar o comportamento e reduzir a percepção dos riscos.
Quando celebridades, atletas e grandes eventos esportivos associam apostas à diversão, ao sucesso e ao entretenimento, cria-se uma imagem positiva que pode influenciar especialmente pessoas emocionalmente vulneráveis.
Da mesma forma que discutimos limites para a publicidade de álcool e tabaco, considero importante refletirmos sobre a forma como as apostas são divulgadas.
O vício em apostas costuma estar ligado a outros sofrimentos emocionais, como ansiedade, depressão, baixa autoestima, solidão ou necessidade de validação?
Na experiência clínica, essa associação é muito frequente.
Muitas pessoas chegam ao consultório acreditando que seu problema é apenas o jogo. Entretanto, ao longo do tratamento percebemos que as apostas frequentemente funcionam como uma tentativa de aliviar dores emocionais que já existiam anteriormente.
Ansiedade, depressão, solidão, baixa autoestima e dificuldades nos relacionamentos podem criar um terreno favorável para que o jogo assuma uma função de compensação emocional.
Por isso, tratar apenas o comportamento de apostar costuma ser insuficiente. É fundamental compreender também o sofrimento que sustenta essa compulsão.
Para quem percebe que está perdendo o controle, acumulando dívidas ou sofrendo emocionalmente por causa das apostas, qual é o primeiro passo para buscar ajuda? E qual o papel da família?
O primeiro passo é reconhecer que o problema existe. Muitas pessoas demoram a procurar ajuda porque acreditam que conseguirão resolver tudo sozinhas.
Buscar acompanhamento psicológico é fundamental para compreender as causas da compulsão e desenvolver novas formas de lidar com o sofrimento emocional. Em muitos casos, também é importante a avaliação psiquiátrica. A família exerce papel essencial quando oferece acolhimento, diálogo e incentivo ao tratamento, evitando julgamentos ou atitudes que aumentem a culpa do paciente.
Alguns especialistas já falam em uma nova epidemia silenciosa no Brasil: a ludopatia. O senhor concorda que o vício em apostas on-line está se tornando um problema de saúde pública?
Acredito que sim. O crescimento acelerado das plataformas digitais, aliado à facilidade de acesso, à intensa publicidade e ao aumento do número de pessoas afetadas, faz com que a ludopatia deixe de ser um problema exclusivamente individual e passe a representar um desafio coletivo.
Seus impactos ultrapassam as perdas financeiras e alcançam a saúde mental, as relações familiares, o desempenho profissional, o endividamento e, em situações extremas, o risco de suicídio.
Por isso, considero que o enfrentamento desse problema exige ações articuladas entre saúde, educação, assistência social, regulação da publicidade e políticas públicas de prevenção. Precisamos compreender que, por trás de cada apostador compulsivo, geralmente existe uma pessoa em sofrimento que necessita de cuidado e não apenas de condenação.


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