Chegamos ao fim de mais um período eleitoral e, ao longo desse período tivemos muitas provas que constataram um fato sobre a nossa atualidade: vivemos em uma sociedade na qual a política parece ter se transformado no principal filtro pelo qual algumas pessoas interpretam a realidade. Já não basta que alguém fale sobre um assunto relevante ou compartilhe uma experiência dolorosa: é necessário saber de que lado está e qual posicionamento pretende assumir. Essa necessidade de encontrar política em tudo tornou-se tão intensa que muitos parecem incapazes de reconhecer que existem outras dimensões da existência humana que também merecem atenção. Foi isso que pôde ser visto na repercussão do vídeo do influencer Felca sobre bullying e fobia social: muitas pessoas esperavam um posicionamento político e, diante de um relato pessoal, demonstrou frustração, recorrendo a críticas e ataques.

O que deveria nos fazer refletir não é a decepção de quem esperava outro assunto, mas a disposição de transformar essa decepção em hostilidade contra alguém que decidiu falar da própria história. Nas discussões sobre o vídeo, houve cobranças por posicionamento político, reclamações sobre o tema escolhido e manifestações de desprezo pelo conteúdo. Não se trata de afirmar que todos os críticos agiram da mesma maneira, mas de reconhecer uma contradição: quando a expectativa ideológica se torna mais importante do que a experiência humana apresentada, o indivíduo deixa de ser ouvido pelo que tem a dizer e passa a ser julgado pelo que os outros gostariam que dissesse.

Existe uma ironia cruel nessa situação. Felca falou sobre bullying, humilhação e as consequências dessas experiências para a vida de uma pessoa. Entretanto, parte das reações reproduziu justamente a lógica que torna o bullying possível: ridicularizar, pressionar e punir aquele que não corresponde às expectativas do grupo. Desde quando o direito de compartilhar uma experiência depende da aprovação de quem assiste? Em que momento discordar das expectativas de alguém passou a ser justificativa para constrangê-lo publicamente?

Do ponto de vista psicológico, esse comportamento pode surgir quando as convicções políticas deixam de ser apenas uma dimensão da identidade e passam a determinar a maneira como o indivíduo interpreta tudo ao seu redor. Já não se escuta para compreender, mas para identificar sinais de concordância ou oposição. A empatia, que deveria permitir o reconhecimento da dor independentemente das diferenças, torna-se seletiva, condicionada à concordância ideológica. Até o sofrimento alheio perde sua importância quando não serve à narrativa que alguém deseja confirmar.

É evidente que a política importa. Suas decisões afetam a educação, a saúde, a segurança e as condições de vida da população. O problema não está em discutir política, cobrar posicionamentos ou discordar de figuras públicas, mas em transformar essa discussão em obrigação permanente, como se ninguém pudesse falar sobre qualquer outro aspecto da vida sem prestar contas às expectativas de seu público. Quando tudo se transforma em disputa ideológica, até a dor humana passa a ser julgada pela sua utilidade política.

A contradição se torna ainda mais evidente quando pessoas que denunciam a intolerância passam a praticá-la diante de opiniões ou comportamentos que as contrariam. Quem defende a liberdade de expressão precisa reconhecer que ela também inclui o direito de alguém escolher o assunto sobre o qual deseja falar. Caso contrário, não estamos defendendo a liberdade, mas exigindo que todos se comportem conforme nossas próprias convicções.

O errado, portanto, não é Felca por falar sobre bullying e fobia social em um vídeo publicado no Dia Mundial de Combate ao Bullying em vez de atender às expectativas políticas de parte do público. O problema está na incapacidade de reconhecer que alguém pode ter algo importante a dizer sem participar da disputa ideológica do momento. Se defendemos a empatia, precisamos exercê-la também quando o sofrimento alheio não confirma nossas preferências.

Uma sociedade que transforma toda diferença em motivo de hostilidade precisa refletir não apenas sobre aquilo que combate, mas também sobre aquilo em que está se transformando.

 

Wanderson R. Monteiro   

Autor de São Sebastião do Anta – MG.

Bacharel em Teologia, Pedagogo.

Psicanalista.

Dr. Honoris Causa em Literatura e Dr. Honoris Causa em Jornalismo.

 

 

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