De uma receita improvisada dentro de casa nasceu um dos sabores mais curiosos e queridos do Mercado Municipal
CARATINGA– Quem frequenta o Mercado Municipal de Caratinga aos sábados já conhece a cena. Logo cedo, muitas pessoas se aproximam de uma banca onde o cheiro de pastel recém-frito se mistura ao aroma do caldo de cana.
Mas o que mais chama a atenção não é apenas o movimento. É um recheio pouco comum que virou marca registrada do local: o pastel de jiló.
Por trás dessa história está uma família do distrito de Dom Lara que há anos leva para a feira muito mais do que comida. Leva tradição, trabalho e memórias construídas ao longo de gerações.
O trabalho no sítio e a tradição da cana
Tudo começa ainda no sítio da família.
“No sítio começa o trabalho do caldo de cana e do pastel da feira. É o plantio da cana e o corte dela para trabalhar”, explica Vicente de Paula Martins.
Orgulhoso da atividade que desenvolve há décadas, ele mostra uma invenção criada por ele próprio para facilitar a preparação da matéria-prima.
“Tem uma maquininha que eu inventei para fazer a limpeza da cana antes de produzir o caldo”.
Uma tradição de gerações
A relação da família com a cana-de-açúcar atravessa gerações.
“Esse trabalho de pastel e caldo de cana já tem entre oito e doze anos aqui na feira. Mas a cana está na nossa família há mais de 80 anos. É uma tradição da nossa família”.
O início da banca no Mercado Municipal
A banca que hoje se tornou referência no Mercado Municipal começou de forma simples.
“Meu pai foi o mentor dessa banca”, conta Vilcimar Paula Martins, filho de Vicente. “Quando ele começou, as vendas eram poucas. Mas ele foi persistindo. Hoje virou tradição”.
Clientes fiéis e rotina da feira
A perseverança deu resultado. Atualmente, muitos clientes fazem questão de visitar a banca todos os sábados.
“Temos clientes fiéis. Toda semana eles estão aqui comendo pastel e tomando caldo de cana”.
A criação do pastel de jiló
E foi justamente um sabor diferente que ajudou a transformar a banca em uma das mais procuradas da feira.
“Foi criado um pastel com um sabor diferente, que é o pastel de jiló. E ele está virando um grande fenômeno da nossa banca”.
A aceitação do público
Segundo Vilcimar, o público inicialmente estranha a combinação, mas logo se surpreende.
“O pessoal experimenta, gosta e volta. Tem quem misture com carne, tem quem misture com queijo. Virou tradição”.
O “rito” da feira
O sucesso é tanto que a família costuma brincar que existe uma regra não escrita para quem visita o Mercado Municipal.
“Hoje, quem vem à feira e não come um pastel nem toma um caldo de cana parece que nem veio”.
A origem da ideia
Mas a história do famoso pastel de jiló guarda uma origem ainda mais curiosa. O responsável pela ideia é Gabriel Luiz da Silva Martins, neto de Vicente e Vanilda. A inspiração surgiu quando ele ainda era criança.
“Eu tinha mais ou menos oito anos e estava correndo atrás da minha avó querendo alguma coisa para comer no café da tarde”.
A receita improvisada
Naquele dia, não havia recheios tradicionais disponíveis.
“Só tinha massa e algumas sobras do almoço. Então minha avó fez três tipos de pastel para mim: um de jiló, um de quiabo e um de feijão”.
O sabor que venceu
O resultado surpreendeu.
“Eu experimentei os três e o de jiló saiu disparado na frente. Foi o melhor pastel que eu já tinha comido”.
A entrada no cardápio
Anos depois, durante uma pequena feira realizada em Dom Lara, a família resolveu repetir a experiência.
“A gente pensou: vamos colocar o pastel de jiló para ver o que acontece”.
O resultado foi imediato.
“Foi o sabor mais vendido daquele dia. Desde então nunca mais saiu do cardápio”.
O sucesso atual
Hoje, o recheio exótico se transformou em uma das principais atrações da banca.
“As pessoas ainda estranham um pouco porque não estão acostumadas com jiló. Mas quando experimentam, gostam”.
As combinações preferidas
Gabriel acredita que o segredo está nas combinações.
“Jiló com queijo, jiló com carne… fica muito bom”.
O caldo de cana da família
Além do pastel, outro protagonista da banca é o caldo de cana produzido a partir de uma variedade cultivada pela família há gerações.
“A cana manteiga veio para a nossa família através dos meus bisavós. É uma cana muito macia, excelente para produzir um caldo clarinho e saboroso”.
Tradição que permanece
Mais do que uma banca de feira, o espaço se tornou um encontro entre tradição rural e cultura popular. Enquanto a cana continua sendo cultivada no sítio e novos pastéis saem da cozinha, três gerações trabalham juntas para manter viva uma história construída com simplicidade, dedicação e muito sabor.


