Ex-ministro dos Direitos Humanos lançou livro no Casarão das Artes e destacou educação, políticas públicas e redes de proteção como instrumentos para evitar homicídios, feminicídios e violência contra crianças
CARATINGA – “O que vem antes da violência?” A pergunta que dá título ao novo livro de Nilmário Miranda também serviu como ponto de partida para o debate realizado na tarde desta quinta-feira (17), no Casarão das Artes, em Caratinga. Ex-ministro dos Direitos Humanos, ex-deputado federal e histórico militante na defesa dos direitos humanos, Nilmário apresentou a obra “O Que Vem Antes da Violência – Como municípios de Minas Gerais protegem mulheres, crianças e comunidades” e falou sobre os fatores que, segundo sua pesquisa, podem contribuir para prevenir crimes antes que eles aconteçam.
O lançamento integrou a programação que marcou os 14 anos do Casarão das Artes e contou ainda com a participação do professor doutor Nelson Sena, como debatedor, e do professor Américo Galvão.
A obra parte de experiências observadas pelo autor em municípios mineiros que passaram longos períodos sem registrar homicídios. A pesquisa, iniciada quando Nilmário ocupava a Secretaria de Estado de Direitos Humanos de Minas Gerais, procura identificar o que essas cidades fizeram para construir ambientes de maior proteção social.
Segundo Nilmário, a principal constatação foi que a prevenção da violência não pode ser atribuída exclusivamente à segurança pública.
“Educação mudou o cenário”, afirmou durante a entrevista. Ele citou como características encontradas nas cidades pesquisadas a presença das crianças e adolescentes na escola, a oferta de educação em tempo integral e atividades culturais e esportivas no contraturno.
O ex-ministro também destacou a atuação integrada de serviços de saúde, assistência social, conselhos tutelares, forças de segurança e organizações comunitárias. Na avaliação apresentada por ele, quando esses mecanismos funcionam de forma articulada, cria-se uma rede capaz de identificar situações de vulnerabilidade antes que elas evoluam para crimes mais graves.
“Onde não tem uma pessoa que passa fome, onde não tem morador de rua, onde as pessoas todas têm direito, têm conselhos, têm participação, tem todos os instrumentos que tem no país, o Centro de Referência de Assistência Social (Cras), o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), tudo isso tem na cidade, então cria um ambiente”, afirmou.
Experiências que podem ser ampliadas
Nilmário relatou que, ao acompanhar as experiências dessas localidades, encontrou municípios pequenos que conseguiram manter durante anos índices muito baixos de violência letal.
De acordo com o autor, a pesquisa começou com 34 municípios que apresentavam um histórico prolongado sem homicídios. Posteriormente, a análise foi ampliada, e ele afirma que o número de cidades sem registro de homicídio e feminicídio cresceu nos anos seguintes.
A experiência, segundo Nilmário, demonstra que a prevenção não é apenas uma ideia abstrata, mas uma possibilidade que já apresenta exemplos concretos em Minas Gerais.
Para ele, algumas dessas práticas podem ser adaptadas a outras cidades, embora reconheça que os municípios maiores enfrentam problemas adicionais, como a presença de organizações criminosas, narcotráfico e redes estruturadas de criminalidade.
“Em cidades maiores também tem outras complexidades. Aí tem que juntar o Ministério Público, a Polícia Civil, a Polícia Militar, guardas municipais, defensorias. É mais completo, mas se tem jeito, tem. Não pode é que a barbárie continue”, afirmou.
Feminicídio começa antes da morte
A prevenção da violência contra as mulheres ocupa espaço central na obra. Para Nilmário, o feminicídio não começa no momento em que a mulher é assassinada. Antes disso, podem existir agressões, ameaças, controle, medo e outras formas de violência que nem sempre chegam ao conhecimento das autoridades.
“O feminicídio começa antes”, destacou.
Ele defendeu o fortalecimento das redes de proteção e chamou atenção para a necessidade de facilitar o acesso das mulheres aos mecanismos de denúncia e atendimento. Segundo o ex-ministro, uma das reivindicações apresentadas por mulheres durante a pesquisa foi a presença de policiais femininas nas equipes responsáveis pelo atendimento às ocorrências, pela possibilidade de maior facilidade no relato de situações de violência.
Nilmário também relatou um episódio ocorrido em Rio Doce, no qual vizinhas teriam se organizado para proteger uma mulher que estava sendo agredida pelo companheiro. Para ele, o caso representa a importância das redes comunitárias na prevenção.
“Redes de mulheres em defesa da mulher, isso tem que ser conhecido”, afirmou.
Ele também relacionou a violência contra mulheres à proteção de crianças e adolescentes, defendendo uma atuação integrada para combater o abuso sexual e a gravidez infantil.
“Criança não é mãe”, ressaltou, ao abordar a necessidade de enfrentar a erotização precoce, o abuso sexual e situações de violência que podem permanecer ocultas.
Educação e redes de proteção
Nilmário defendeu ainda a adoção de medidas de proteção no ambiente digital e mencionou o debate internacional sobre o acesso de crianças e adolescentes a celulares e redes sociais.
Para ele, o enfrentamento da violência exige a participação conjunta do poder público e da sociedade. Prefeituras, governos estaduais e federal, Defensoria Pública, Ministério Público, forças de segurança, conselhos e organizações da sociedade civil precisam atuar de forma articulada.
“O importante é isso: de onde vem essa violência? Não começa com a morte. A morte é o fim”, afirmou.
A ideia central da obra, segundo o autor, é justamente deslocar parte do foco da resposta ao crime para as condições que o antecedem.
“A gente quer evitar o feminicídio”, destacou.
Duas histórias de Caratinga
O debate realizado no Casarão das Artes também trouxe uma perspectiva diretamente relacionada à história de Caratinga.
O professor Nelson Sena explicou que sua participação teve como objetivo apresentar a trajetória de duas mulheres ligadas ao município e que tiveram participação na história da resistência à ditadura militar e da defesa dos direitos humanos: Jessie Jane e Inês Etienne.
Jessie Jane, conforme relatado por Nelson, estudou em Caratinga e foi presa aos 20 anos durante a ditadura militar. Sua família também foi vítima da repressão política.
Nelson citou ainda Inês Etienne Romeu, que foi presa e torturada durante o regime militar e posteriormente contribuiu para a documentação e o esclarecimento de centros clandestinos de tortura utilizados pela repressão.
Para o professor, recuperar essas histórias é importante especialmente diante de manifestações contemporâneas que defendem uma nova ruptura institucional ou fazem referência positiva à ditadura.
“É sempre bom trazer à tona essas histórias que contribuíram de forma decisiva também para a redemocratização e para a história dos direitos humanos no Brasil”, afirmou.
14 anos do Casarão
O professor Américo Galvão destacou que o lançamento do livro representou também uma oportunidade de celebrar os 14 anos do Casarão das Artes a partir de uma discussão relacionada à cidadania e aos direitos humanos.
Ele classificou o encontro entre Nilmário Miranda e Nelson Sena como uma oportunidade de trazer ao público histórias de mulheres que passaram por Caratinga e foram vítimas da repressão durante a ditadura militar.
“Celebrar os 14 anos do Casarão das Artes significa celebrar o pertencimento à nossa comunidade, a nossa chamada para que todos venham tomar consciência dessa luta”, afirmou.
Américo também destacou os números de atividades realizadas pelo espaço cultural. Segundo ele, mais de 30 mil pessoas passaram pelo Casarão ao longo de 2025, período em que foram realizados mais de 630 eventos.
Para o professor, a programação reforça o papel do espaço como ambiente de cultura, memória e debate sobre questões sociais.
Nelson Sena também ressaltou a importância de trazer para Caratinga a discussão proposta por Nilmário Miranda e, especialmente, de recuperar a trajetória das duas mulheres relacionadas à história do município.
“Só pelo exemplo do Nilmário aqui na nossa cidade, esse evento já vale a pena”, afirmou.
Prevenir antes que aconteça
Ao longo da entrevista, Nilmário voltou diversas vezes à ideia central de seu livro: a violência não começa com o crime consumado.
Para o ex-ministro, sinais de vulnerabilidade, abandono, violência doméstica, evasão escolar, falta de oportunidades e ausência de redes de proteção podem fazer parte de um processo que, se não for interrompido, pode chegar a situações extremas.
Por isso, segundo ele, o combate à violência precisa começar antes da ocorrência policial.
A proposta apresentada no Casarão das Artes é transformar experiências de municípios que conseguiram reduzir ou evitar determinados tipos de violência em referências para outras localidades, respeitando as características de cada uma.
“Não é partido A,B ou C, não é candidato A,B ou C. Tem que criar consensos para atingir a sociedade como um todo e obrigar os agentes públicos ou não públicos a agirem, já fazer a prevenção, impedir que aconteça”, defendeu Nilmário.
Para o autor, o desafio é fazer com que a prevenção deixe de ser apenas uma resposta eventual e passe a integrar de maneira permanente as políticas públicas. A pergunta que dá nome ao livro permanece, portanto, como provocação: antes da violência, o que uma sociedade pode fazer para impedir que ela aconteça?

