Que em tudo possamos ver o impossível e, em todo impossível, encontrar alguma possibilidade de sermos humanos. Talvez essa seja a única natureza que o homem procura alcançar. E temo que estejamos longe de tal feito. Afundados em eventos feitos para nós mesmos, seguimos enquanto o tempo passa lá fora e as coisas saem de órbita. Pessoas morrem por medo, angústia, doenças, guerras e pela ilusão dos grandes e soberanos idiotas que detém o poder de mando.

Começamos mais um mês e, até aqui, o que mudou? O que foi feito? O que ficou, mais uma vez, fora do alcance daqueles que poderiam resolver? Essa é a vida acontecendo, genuína e mortal. A realidade não depende de nós, Caeiro. Depende de poucos. Que possamos, então, não nos acostumar. Que não façamos da miséria uma paisagem, da guerra uma notícia qualquer, da fome uma estatística, da morte um número e da injustiça uma conversa de poucos minutos antes de voltarmos ao que estávamos fazendo. Que conservemos alguma capacidade de espanto diante do absurdo, porque talvez o dia em que nada mais nos espantar seja também o dia em que teremos perdido uma parte do que ainda nos torna humanos.

Que não confundamos progresso com aquilo que apenas nos torna eficientes em produzir, consumir e esquecer. Que não chamemos de liberdade a escolha entre aquilo que já escolheram por nós. Que não confundamos informação com conhecimento, opinião com verdade, poder com razão ou barulho com participação. Que desconfiemos dos homens que se apresentam como donos das certezas, sobretudo daqueles que precisam provar todos os dias que são grandes demais para serem questionados.

Que possamos olhar para fora de nós mesmos. Há sempre alguém pagando o preço daquilo que, para outros, parece apenas uma decisão ou necessidade. A palavra inevitável talvez seja uma das mais perigosas que inventamos. Ela nos permite aceitar quase tudo sem assumir responsabilidade por coisa alguma.

Que compreendamos que ninguém escolhe todas as condições em que nasce, mas que passamos a vida escolhendo o que fazemos com aquilo que encontramos. Talvez por isso ainda exista esperança. Não porque controlemos a realidade, mas porque podemos decidir o que fazer diante dela. Podemos fechar os olhos ou olhar. Passar adiante ou parar. Aceitar ou questionar.

E que, quando chegar nossa vez de decidir alguma coisa, por pequena que seja, não nos esqueçamos de que alguém será afetado por aquilo que escolhemos. Que não chamemos de destino aquilo que foi escolha, nem de acaso aquilo que foi negligência. Porque talvez a humanidade nunca tenha sido uma condição pronta, entregue a nós no nascimento. Que possamos vê-la como construção diária, imperfeita e muitas vezes frustrante. Talvez sejamos humanos não por dominar o mundo, mas por aprender a viver nele sem destruir tudo aquilo que não compreendemos.

Que cheguemos ao fim de mais um mês ainda capazes de desejar isso. Não riqueza, poder ou grandeza. Não a vitória sobre o outro. Apenas a possibilidade de continuar reconhecendo no outro alguma coisa de nós. Que não percamos a capacidade de sentir, cuidar e indignar-nos, nem o direito de transformar o inevitável.

Que em tudo possamos procurar o impossível, não como quem espera milagres, mas como quem se recusa a aceitar que o mundo só pode ser aquilo que já é. E que, dentro de cada impossível, encontremos alguma possibilidade de sermos melhores do que temos sido, menos indiferentes do que fomos ontem e um pouco mais próximos daquela humanidade que tanto gostamos de dizer que somos.

Que sejamos humanos diante do que não podemos mudar, de quem podemos ajudar, de quem pensa diferente, de quem sofre e, principalmente, quando ninguém estiver olhando.

Porque talvez seja essa a única oração que ainda faça algum sentido.

Que sejamos humanos.

Amém.

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