Mais do que cuidar, Francisco Reis, o Chico, reorganizou a própria vida para acompanhar de perto a rotina do filho Rodrigo
CARATINGA – Enquanto dezenas de alunos deixam a escola apressados para voltar para casa, uma cena se repete diariamente. Francisco Reis, o Chico, de 49 anos, estaciona o carro, conduz a cadeira de rodas, ajusta cada detalhe e, com a segurança de quem transformou o cuidado em rotina, pega o filho Rodrigo Lucas, de 15 anos, nos braços.
Em poucos minutos, o adolescente está acomodado no veículo e segue o caminho ao lado do pai. Não há pressa. Há cumplicidade.
Esse gesto, repetido todos os dias, resume uma história de amor, renúncia e presença. Neste Dia dos Pais, Chico representa uma paternidade construída nos pequenos momentos, na dedicação silenciosa e na escolha diária de estar ao lado do filho.
Rodrigo nasceu prematuro e sofreu falta de oxigênio no cérebro durante o parto, o que resultou em uma deficiência física que faz com que ele utilize cadeira de rodas. Mas, para o pai, a deficiência nunca definiu quem o filho é.
“Na realidade, eu não tenho só o Rodrigo, eu tenho três filhos. Mas o Rodrigo mudou a minha vida e a da mãe dele. Mudou o nosso jeito de ver as coisas, de enxergar o mundo de uma forma que a gente jamais imaginou. E a gente aprende muito mais com ele do que ele com a gente. Ele é inteligentíssimo e tem uma personalidade ímpar”, afirma.
Para acompanhar de perto o desenvolvimento do filho, Chico transformou completamente a própria rotina. Antes, viajava semanalmente a trabalho. Hoje, adaptou a profissão para permanecer em Caratinga e participar de todas as etapas da vida do adolescente.
“Na realidade, a gente adapta a nossa vida à vida deles. Eu mudei a minha rotina 100%. Parei de viajar e hoje trabalho internamente para conseguir dar conta de tudo. Trago ele para a escola, busco às 11h30, acompanho a fisioterapia na UNEC, o curso de informática e tudo o que ele precisa. Não é fácil, mas é gratificante.”
Além do acompanhamento diário, Chico faz questão de participar da vida escolar do filho e integra o colegiado da escola.
“Ele depende da gente para praticamente tudo. Então, é importante estar presente. E essa convivência diária faz com que a gente aprenda ainda mais com ele.”
Apesar das dificuldades, o pai procura destacar as conquistas de Rodrigo. Segundo Chico, o adolescente enfrenta os desafios com coragem e determinação.
“A maior tristeza é quando ele percebe que não consegue participar de algumas atividades como os colegas. A escola faz de tudo para incluir, nós também, mas hoje ele entende mais essas limitações. Por outro lado, a maior alegria é ver o quanto ele é guerreiro. Já passou por duas cirurgias, não tem medo, faz questão de tentar andar, de ficar em pé e nunca reclama dos exercícios.”
Entre tantas lembranças, existe uma que ainda emociona o pai. Rodrigo dizia que, depois da cirurgia, iria jogar bola.
“Ele dizia que, depois da cirurgia, iria jogar bola. Aquilo doía muito, porque era um sonho dele. A vontade de andar ainda existe, mas a gente entrega isso nas mãos de Deus.”
Hoje, o maior sonho de Chico é outro: ver o filho conquistar a própria independência.
“O sonho dele é ser advogado. E eu acredito que vai ser um excelente profissional. Quero vê-lo formado e seguindo o caminho dele.”
Mensagem
A história de Chico também lembra outras trajetórias de pais que transformaram o amor pelos filhos em uma verdadeira missão de vida. No filme francês “Meu Pai, Meu Herói”, baseado na história real de Dick Hoyt e seu filho Rick, o mundo conheceu a jornada do chamado Team Hoyt, dupla que participou de centenas de provas de corrida e triatlo, mostrando que muitos desafios são enfrentados quando pai e filho caminham juntos.
As histórias são diferentes, assim como os caminhos percorridos. Chico não enfrenta pistas de corrida ao lado de Rodrigo, mas encara diariamente outra maratona: a rotina de cuidados, acompanhamentos, adaptações e escolhas feitas para garantir que o filho tenha oportunidades e possa realizar seus sonhos.
Neste Dia dos Pais, Chico deixa uma mensagem para outras famílias.
“Valorizem os pais e valorizem os filhos. Um pai dá a vida pelo filho. Não existe nada melhor do que chegar em casa e encontrar um filho esperando por você. A gente vive pelos filhos.”
Mais do que carregar Rodrigo nos braços todos os dias, Chico carrega a certeza de que a verdadeira força da paternidade está na presença constante. Em cada ida à escola, em cada consulta e em cada desafio enfrentado lado a lado, ele mostra que o amor de um pai se revela, acima de tudo, nos pequenos gestos que se repetem todos os dias.

