O Ibovespa, principal índice de ações da Bolsa brasileira, chegou a cair 17,34% na mínima do dia desta segunda-feira, aos 169.516,43 pontos, com o mercado repercutindo a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Por volta das 13h, a queda amenizou para 14,14%.
O dólar comercial subia 8,78% às 12h53, cotado a R$ 5,4316 para venda. Os juros futuros também registravam forte alta, com as taxas dos contratos para janeiro de 2029 e janeiro de 2031 acima de 15% ao ano.
A queda registrada no pior momento da Bolsa é a maior intradiária desde março de 2020, quando os mercados despencaram com a pandemia de covid-19. Em 12 de março daquele ano, o Ibovespa chegou a perder cerca de 19,6% durante as negociações, mas encerrou a sessão em baixa de 14,78%.
O mercado reage à reversão das expectativas eleitorais. Investidores haviam ampliado as apostas na vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), associada à expectativa de mudança na condução da política econômica. Com o resultado, os preços das ações, do dólar e dos juros passam por um ajuste.
Bolsa tem negócios interrompidos
B3 acionou o circuit breaker logo na abertura do pregão. As negociações foram suspensas por 30 minutos após o Ibovespa atingir queda de 10% em relação ao fechamento anterior. Foi o primeiro acionamento do mecanismo desde março de 2020.
Objetivo da pausa é reduzir a volatilidade. A interrupção dá tempo para os investidores avaliarem as informações e reorganizarem suas ordens. Depois da retomada, uma queda de 15% prevê nova paralisação, de uma hora. Se as perdas alcançarem 20%, a B3 pode determinar outra suspensão, por prazo definido pela própria Bolsa. Entenda como funciona o circuit breaker.
Bolsa também ampliou os limites de oscilação dos contratos futuros. O limite inferior dos contratos futuros de Ibovespa passou de -10% para -15% e, depois, para -20%, incluindo os minicontratos. As alterações valem para a sessão desta segunda-feira, conforme informou a B3.
Movimento reverte parte da valorização posterior ao primeiro turno. Em 5 de outubro, o Ibovespa havia saltado 7,7% e superado os 200 mil pontos pela primeira vez. Bancos, varejistas e construtoras estavam entre os destaques daquela sessão.
Resultado eleitoral muda expectativas
Vitória de Lula contrariou o cenário considerado mais provável pela Suno Research. Gustavo Sung, economista-chefe da casa, afirma que trabalhava com um leve favoritismo de Flávio. A expectativa de uma agenda mais liberal havia contribuído para a melhora da Bolsa após o primeiro turno.
Com a vitória do presidente Lula, é provável que o mercado faça uma correção nesta semana. Isso deve gerar uma volatilidade bastante grande no câmbio e na curva de juros futura, com possível estresse no mercado de títulos públicos. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research
Condução das contas públicas será determinante para os ativos brasileiros. William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, avalia que o resultado eleitoral provoca a reversão de parte das posições montadas depois do primeiro turno. Para além da reação inicial, ele destaca os desafios fiscais e de governabilidade.
Sabemos que a situação fiscal é central para a percepção de risco de um país e para a trajetória de sua moeda. Por isso, a condução das contas públicas será um dos pontos mais importantes a observar daqui para frente. William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue
Pessimismo inicial não determina o desempenho de todo o mandato. Sung lembra que a aprovação do arcabouço fiscal ajudou a melhorar o ambiente para a Bolsa em 2023, depois das incertezas que acompanharam a eleição de 2022.
Por isso, precisamos acompanhar como o governo vai se organizar para 2027. Esse é o ponto para o qual mais chamamos atenção.Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research
Dólar reduz alta após superar R$ 5,60
Moeda americana mantinha forte valorização, embora abaixo da máxima da sessão. Às 12h53, o dólar comercial subia 8,78%, a R$ 5,4316 para venda, depois de atingir R$ 5,6049. Na mínima do dia, foi negociado a R$ 5,4051.
Resultado eleitoral levou investidores a ajustar posições no câmbio. Com a derrota de Flávio, que havia vencido o primeiro turno, o real devolvia a valorização registrada desde 5 de outubro, quando a cotação do dólar saiu de cerca de R$ 5,21 para menos de R$ 5.
B3 também ampliou os limites de oscilação do dólar futuro. A Bolsa alterou os limites dos contratos futuros e minicontratos durante a sessão, diante da intensidade do movimento. As mudanças buscam permitir a continuidade das negociações em meio às fortes oscilações.
Juros futuros disparam
Taxas dos contratos mais longos superavam 15% ao ano. Nas negociações entre 12h52 e 12h53, a taxa para janeiro de 2027 estava em 13,731% ao ano. O vencimento de janeiro de 2029 marcava 15,330%, enquanto o de janeiro de 2031 era negociado a 15,530%.
Juros chegaram a patamares ainda mais elevados durante o pregão. O contrato para janeiro de 2031, que havia começado os negócios a 14,460%, atingiu 15,940% na máxima da sessão. O de janeiro de 2029 chegou a 15,850%, enquanto o de janeiro de 2027 alcançou 14,020%.
Movimento reflete preocupação com inflação e contas públicas. A valorização do dólar pode encarecer produtos importados e aumentar as expectativas de inflação, reduzindo o espaço para cortes da Selic. Sung prevê inflação mais persistente em 2027 e menor flexibilidade para o Banco Central reduzir os juros.
Tesouro Nacional cancelou leilões de títulos públicos. O órgão suspendeu as ofertas tradicionais de papéis prefixados e atrelados à inflação previstas para terça-feira (27) e quinta-feira (29). O leilão de Letras Financeiras do Tesouro, vinculadas à Selic, previsto para terça-feira, foi mantido. O Tesouro informou que continuará monitorando as condições de mercado e atuará para assegurar o funcionamento do mercado de títulos públicos e de outros ativos relacionados.
Cotações
Bancos registravam fortes perdas. Às 12h55, as ações do Banco do Brasil (BBAS3) caíam 27,39%, a R$ 17,95. As preferenciais do Bradesco (BBDC4) perdiam 23,02%, a R$ 15,68, enquanto as do Itaú Unibanco (ITUB4) recuavam 14,45%, a R$ 41,32.
Vamos e Magazine Luiza perdiam mais da metade do valor. No mesmo horário, as ações da Vamos (VAMO3) recuavam 54,76%, a R$ 2,90, enquanto as do Magazine Luiza (MGLU3) caíam 54,37%, a R$ 5,79. A Localiza (RENT3) registrava baixa de 38,78%, a R$ 32,09.
Petrobras também operava em queda. As ações preferenciais da estatal (PETR4) recuavam 10,38%, a R$ 52,59, às 12h55.
Exportadoras estavam entre as altas, beneficiadas pela valorização do dólar. As ações da Suzano (SUZB3) subiam 8,57%, a R$ 46,75, enquanto Embraer (EMBJ3) avançava 8,32%, a R$ 95,70. WEG (WEGE3) ganhava 6,86%, a R$ 45,66, e Vale (VALE3) tinha alta de 5,33%, a R$ 65,20.