Em entrevista ao DIÁRIO sobre o Agosto Lilás, a psicóloga Géssika Barbosa afirma que a omissão e a indiferença dificultam o rompimento dos ciclos de violência

CARATINGA – O Agosto Lilás começa neste sábado (1º) e marca uma campanha nacional de conscientização e enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher.

Os números reforçam a importância do tema. Segundo pesquisa realizada neste ano pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva, 54% das mulheres brasileiras afirmam já ter sofrido algum tipo de violência praticada por parceiro ou ex-parceiro. São cerca de 47,7 milhões de mulheres que relatam ter vivenciado agressões previstas na Lei Maria da Penha. Desse total, 42% sofreram violência psicológica; 25%, violência física; 19%, violência moral; 10%, violência sexual; e 9%, violência patrimonial.

Para a psicóloga Géssika Barbosa, prevenir a violência exige o envolvimento de toda a sociedade.

“A violência contra a mulher é crime e também uma questão de saúde pública. Toda a sociedade deve atuar para proteger a vítima e acionar a rede de apoio”, afirma.

 

O que é o Agosto Lilás e por que ele é relevante?

O Agosto Lilás é uma campanha de conscientização voltada ao enfrentamento da violência contra a mulher. Criada em Mato Grosso do Sul, a iniciativa ganhou abrangência nacional e faz referência à sanção da Lei Maria da Penha, em 7 de agosto de 2006.

Sua principal missão é manter o tema em evidência, ampliar o conhecimento da população sobre os direitos das mulheres, divulgar os mecanismos de proteção, incentivar a denúncia e fortalecer o compromisso da sociedade e da rede intersetorial na prevenção e no enfrentamento da violência.

 

Quais são as principais formas de violência contra a mulher?

 

A Lei Maria da Penha reconhece cinco formas de violência doméstica e familiar.

A violência física compreende agressões que atingem a integridade corporal, como empurrões, espancamentos e queimaduras.

A violência psicológica envolve ameaças, humilhações, manipulação, isolamento, perseguição e outras condutas que afetam a autoestima ou buscam controlar a vítima.

A violência sexual ocorre quando a mulher é obrigada, mediante ameaça, intimidação ou força, a manter ou presenciar atos sexuais sem consentimento, além de situações que restringem seus direitos reprodutivos.

Já a violência patrimonial caracteriza-se pela retenção, destruição ou controle de documentos, bens, dinheiro ou instrumentos de trabalho.

Por fim, a violência moral corresponde aos crimes de calúnia, difamação e injúria.

 

Quais são os principais mitos sobre a violência contra a mulher?

 

Ainda existem muitos mitos que dificultam o enfrentamento desse problema. São frases repetidas por gerações e que acabam naturalizando comportamentos criminosos.

Um exemplo é o ditado “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. Na realidade, a violência doméstica é crime e uma questão de saúde pública. Toda a sociedade deve agir para proteger a vítima.

Outro mito é afirmar que “ela continua porque quer” ou que “gosta de apanhar”. Essa visão ignora fatores como medo, dependência emocional e financeira, ameaças e o risco de feminicídio.

Também é comum atribuir a violência ao álcool ou ao estresse. Embora possam funcionar como fatores desencadeantes, eles não explicam nem justificam a agressão, que normalmente está relacionada ao exercício de poder e controle sobre a vítima.

Da mesma forma, responsabilizar a mulher pela violência sofrida jamais é aceitável. A responsabilidade é sempre do agressor.

 

A quais canais de ajuda a mulher pode recorrer?

A mulher pode buscar apoio pelo telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, que oferece orientação, acolhimento e encaminhamento. Em situações de emergência, deve acionar o 190, da Polícia Militar.

Em Caratinga, também pode procurar a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), localizada na Rua João Caetano Nascimento, nº 717, bairro Limoeiro.

As Unidades Básicas de Saúde (UBS), hospitais, CRAS e CREAS também integram a rede de acolhimento. Quando houver necessidade de medidas jurídicas ou envolvimento de crianças e adolescentes, a vítima deve procurar o Ministério Público, a Defensoria Pública ou o Conselho Tutelar.

 

Como é o atendimento psicológico à mulher vítima de violência?

O atendimento psicológico é baseado no acolhimento, na escuta qualificada e na ausência de julgamentos.

O objetivo é oferecer um ambiente seguro para que a mulher compreenda sua realidade, fortaleça sua autoestima, desenvolva estratégias de enfrentamento, conheça seus direitos e tenha condições de romper o ciclo da violência.

 

A violência doméstica está ligada ao desejo de controlar a vítima?

 

Sim. A violência doméstica está profundamente relacionada às relações desiguais de poder e ao desejo de controle, dominação e subordinação da mulher.

Reduzir essas agressões a um suposto “descontrole emocional” significa minimizar a responsabilidade do agressor. Em muitos casos, a violência é utilizada justamente como instrumento para controlar a autonomia e as decisões da vítima.

 

Por que a violência costuma se repetir?

 

Em muitos relacionamentos, existe dependência emocional, isolamento e dificuldade para romper a relação.

Um dos modelos que ajudam a compreender essa dinâmica é o ‘Ciclo da Violência’, descrito por Lenore Walker, composto por três fases: aumento da tensão, episódio de violência e fase de arrependimento, conhecida como “lua de mel”.

Embora não explique todos os casos, esse modelo ajuda a entender por que muitas mulheres permanecem em relações abusivas e como a violência tende a se repetir.

 

De onde vem a origem da violência contra a mulher?

 

A violência está ligada a fatores históricos, culturais e sociais que contribuíram para desigualdades de gênero e relações desiguais de poder.

Por isso, é fundamental promover uma cultura baseada no respeito, na igualdade e na garantia dos direitos humanos.

 

Como romper essa naturalização da violência?

A violência contra a mulher é um problema de toda a sociedade. Somente com a sociedade unida conseguiremos dar um basta na naturalização da violência. A omissão e a indiferença contribuem para o aumento dos casos.

Entre as medidas necessárias estão a desconstrução de comportamentos que banalizam a violência, o fortalecimento das campanhas de conscientização, a atuação responsável da comunidade e a capacitação permanente dos profissionais das áreas de saúde, educação, assistência social, segurança pública e Justiça.

 

Como a mulher pode romper o ciclo da violência?

 

Romper esse ciclo geralmente exige uma rede de apoio formada por familiares, amigos, profissionais de saúde, psicólogos, assistência social e serviços jurídicos. Entre os principais obstáculos estão a dependência financeira e emocional, o medo de novas agressões, as ameaças envolvendo os filhos, a vergonha, o isolamento social, o desconhecimento dos serviços disponíveis e a falta de apoio. Cada mulher vivencia essa realidade de maneira diferente, tornando esse processo gradual e complexo.

 

Quais são os reflexos da violência doméstica nos filhos?

 

Crianças e adolescentes expostos à violência também sofrem consequências importantes. Podem desenvolver ansiedade, depressão, sintomas de estresse pós-traumático, dificuldades escolares, alterações no sono, mudanças de comportamento e medo constante.

A exposição prolongada também pode favorecer a reprodução desses padrões na vida adulta, embora isso possa ser evitado quando há intervenção precoce e apoio adequado.

 

A sociedade está mais consciente sobre esse problema?

 

Sim. A conscientização aumentou graças ao fortalecimento da legislação, das campanhas públicas e da maior divulgação do tema.

Ainda assim, é necessário ampliar a integração entre os setores da Saúde, Educação, Assistência Social, Justiça e Segurança Pública, investir na capacitação contínua dos profissionais, fortalecer ações educativas nas escolas e envolver homens e meninos na construção de uma cultura de respeito e igualdade.

 

Na segunda-feira haverá uma ação do Agosto Lilás em Caratinga. Como será?

 

Na segunda-feira (3), será realizado o evento “Semeando Respeito, Cultivando Proteção – Pela Infância e pelos Direitos das Mulheres”, promovido pela Secretaria Municipal de Educação, em parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e o Conselho Municipal da Mulher.

A programação acontecerá no Centro de Convenções Diário da Anunciação Grossi, nos períodos da manhã e da tarde, reunindo profissionais dos Centros de Educação Infantil Municipal (CEIMs), equipes pedagógicas, gestores e demais profissionais da rede municipal de ensino.

O objetivo é promover formação, sensibilização e reflexão sobre a prevenção da violência contra a mulher, destacando o papel da educação na identificação de situações de vulnerabilidade, na proteção das crianças e no fortalecimento da rede de cuidado às mulheres e suas famílias.

Emanuel Luiz Brandão, especial para o DIÁRIO

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