Existe uma ideia relacionada à interpretação bíblica que não condiz, de maneira nenhuma, com a realidade esperada pelos escritores sagrados — pelo menos à luz do ensino de Paulo. É a ideia de que a Bíblia pode ser interpretada subjetivamente; que cada pessoa pode interpretá-la como bem entende, sem levar em conta o contexto da época, o próprio contexto direto do texto, ou o conjunto dos livros que compõem as Escrituras.

Por conta da influência dessa forma de pensar, é fácil — e até comum — ouvirmos pessoas dizerem que a Bíblia pode ser interpretada conforme a pessoa a entende (ainda que digam que essa “interpretação” vem do Espírito Santo). No entanto, se levarmos em conta que o Espírito Santo inspirou a escrita das Escrituras, como poderia Ele interpretá-las de forma errônea ou até mesmo contraditória, como vemos em muitas interpretações feitas atualmente?

Dessa forma, aplicar à leitura e interpretação bíblica o famoso ditado popular “cada cabeça uma sentença” não faz sentido diante do ensino bíblico. Isso aparece de forma clara na exortação de Paulo aos cristãos de Corinto: “Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa e que não haja entre vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer” (1 Coríntios 1:10).

Essa exortação pressupõe que a unidade cristã não se baseia em interpretações individuais e conflitantes, mas em uma compreensão comum da verdade revelada. Isso demonstra que deve haver um ensino, uma maneira de entender e interpretar que limite e instrua, estabelecendo uma direção única e princípios claros.

Alcançar a unidade de pensamento seria impossível diante da pura interpretação subjetiva. Portanto, para que todos tenham a mesma forma de pensar, é necessário que todos sigam o mesmo ensino. Quando lemos uma carta, um contrato ou uma mensagem, procuramos compreender o que o autor quis comunicar, e não aquilo que gostaríamos que ele tivesse dito. Com as Escrituras não deveria ser diferente. A interpretação bíblica deve buscar, antes de tudo, o sentido pretendido por seu autor, e não os desejos ou expectativas do leitor. Isso exige princípios hermenêuticos claros, capazes de limitar interpretações pessoais e subjetivas que coloquem o foco no entendimento do receptor, e não na intenção do autor — como propôs Richard Rorty.

Rorty, um autor pós-moderno, afirmou que o sentido de uma mensagem deveria ser dado pela interpretação do receptor, e não pela intenção do autor. Assim, para ele, a interpretação de quem recebe a mensagem é o que deve ser levado em conta, e não a intenção daquele que escreveu.

Embora Rorty estivesse tratando da linguagem em geral, sua proposta acabou influenciando uma forma de leitura em que o significado deixa de depender da intenção do autor e passa a depender do intérprete.

É importante destacar, porém, que Rorty não entendia isso como uma licença para que cada indivíduo crie qualquer sentido de forma isolada. Sua ênfase estava no fato de que os significados são construídos no interior das comunidades linguísticas e nas práticas sociais. Ou seja, não existe um sentido único e objetivo fixado pelo autor, mas múltiplos sentidos possíveis, validados conforme o uso que uma comunidade faz do texto.

Seguindo essa lógica, a mensagem deixa de ter um sentido objetivo e passa a ter um sentido subjetivo, condicionado pelo contexto social e cultural do intérprete.

Com isso, temos hoje uma fragmentação doutrinária, e toda uma cosmovisão (visão de mundo) sendo construída em cima de interpretações falhas. Em vez de vermos todos caminhando e expressando o mesmo pensamento, a mesma crença e a mesma forma de pensar, vemos pessoas defendendo opiniões e interpretações completamente opostas dentro do mesmo ambiente congregacional.

Isso não ocorre porque há erro naquilo que foi escrito, mas porque as interpretações feitas são baseadas mais em desejos e opiniões pessoais do que em uma interpretação fiel. Somente através de uma leitura dedicada e fiel à intenção do autor é que se pode chegar a uma verdadeira unidade de pensamento — um mesmo modo de pensar.

O problema nunca esteve nas Escrituras, mas na disposição humana de fazê-las confirmar aquilo que já se deseja acreditar. A Bíblia não foi escrita para ser moldada aos interesses do leitor, mas para moldar o leitor à verdade de Deus. Enquanto invertermos essa ordem, jamais alcançaremos o “mesmo modo de pensar” pelo qual Paulo tanto insistiu.

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